Excelentíssimo Sr. Darko Gottlicher
Relator do Grupo de Trabalho das Nações Unidas sobre
Desaparecimentos Forçados ou
Involuntários
Comissão de Direitos Humanos
Palais Wilson
Geneva 10, Suíça
Fax: 41-22-917-9006
Ref: Desaparecimento de João Caetano dos Santos desde o dia 09
de fevereiro de 2003, no canteiro de
obras da usina Hidrelétrica de
Candonga, localizada entre os
municípios de Santa Cruz do
Escalvado e Rio Doce, Minas Gerais,
Brasil.
Prezado senhor:
O Centro de Justiça Global, o Movimento dos Atingidos por
Barragens (regional Ponte Nova, Minas Gerais) (MAB), a Comissão Pastoral
da Terra (regional Campo das
Vertentes) (CPT) e o Núcleo de
Assessoria aos Atingidos por
Barragens (NACAB) vêm solicitar
a urgente atenção de vossa
senhoria para o desaparecimento de
um dos atingidos pela barragem
Candonga, João Caetano dos Santos
(foto anexa), 57 anos , brasileiro,
solteiro, vigilante, portador da
identidade nº 4587605 SSPMG,
morador da zona rural do distrito de
Santa Cruz do Escalvado, Minas
Gerais. João desapareceu em circunstâncias suspeitas – que
descreveremos mais detalhadamente
abaixo - desde o dia 09 de fevereiro
de 2003, sendo visto pela última
vez saindo de sua casa que se
localizava dentro do canteiro de
obras da hidrelétrica Candonga, de
responsabilidade direta das empresas
Alcan Alumínios do Brasil,
Companhia Vale do Rio Doce e OAS.
Contexto
A implementação da barragem Candonga: o
autoritário processo de
negociação com as famílias
atingidas e a resistência do
morador João Caetano dos Santos em
particular
O Consórcio Candonga, constituído pelas empresas Vale
do Rio Doce e Alcan Alumínios do
Brasil, foi autorizado pela Agência
Nacional de Energia Elétrica
(ANEEL), em 25 de maio de 2000, a
explorar o potencial hidrelétrico
do Rio Doce, localizado entre os
municípios de Rio Doce e Santa Cruz
do Escalvado, no estado de Minas
Gerais. A energia a ser gerada no
local deverá abastecer somente as
fábricas de produção das
próprias empresas consorciadas.
O raio de ação da hidrelétrica atingiu diversos
povoados da região, alguns com mais
de trezentos anos de existência,
entre eles São Sebastião do
Soberbo, Criminosa e Santana do
Deserto Desde então, todo o
processo de instalação da barragem
tem sido conduzido de forma
autoritária e arbitrária pelo
consórcio e com muito descaso pelas
autoridades governamentais, que tem
permitido o avanço das obras e
início da operação sem que sejam
observados os direitos das
populações atingidas e os
terríveis impactos ambientais
causados.
A forma como o consórcio tratou os membros das
famílias de velha Soberbo e das
áreas rurais circunvizinhas tomadas
para construção da barragem e
formação do lago foi classificado
pela Fundação Estadual do Meio
Ambiente como um dos mais
problemáticos já observados pelo
órgão nas etapas de licenciamento
de uma hidroelétrica, com o uso de
métodos pouco ortodoxos,
que provocaram elevadíssimo
nível de estresse social.
Com
a legítima resistência das pessoas
em entregar suas casas, terras e
meios de subsistência às empresas,
a partir do início de 2003, as
estratégias de ação para
expulsão da população e
implementação do projeto partiram
para o uso mais acirrado da
violência, tanto física quanto
psicológica. Ameaças, mentiras, desinformação fizeram parte da vida diária dos
residentes. Muitas famílias
relataram que tiveram de assinar os
acordos porque ouviram dizer que
suas propriedades tinham se tornado
um bem de interesse público (o
interesse público seria produção
de energia para a produção de
alumínio de empresas privadas)
e que se não assinassem naquele
momento, eles teriam que recorrer à
justiça para discutir seus direitos
e que receberiam muito menos ou
coisa alguma.
A assinatura dos termos de
adesão pelas famílias foi se dando
sem a mínima compreensão da
escolha que estavam fazendo, tal
qual um “cheque em branco.
Àqueles
que não queriam “negociar
seus direitos” e
não
cediam aos argumentos falaciosos, a
estratégia do consórcio era partir
para a violência mais direta.
Vários moradores relataram que
receberam telefonemas anônimos com
ameaças para que deixassem
o grupo de resistência.
Nesse
processo, que já dura cerca de 05 a
06 anos e nunca contemplou a efetiva
participação da população
interessada tampouco o respeito aos
seus direitos, destaca-se o uso
abusivo da máquina do estado,
através da Secretaria de Segurança
Pública de Minas Gerais e do seu
aparato policial, para empreender
perseguições, prisões e intimidar
aqueles que se contrapunham aos
interesses do consórcio, sobretudo
trabalhadores rurais e militantes do
Movimento dos Atingidos por
Barragens (MAB).
Ressaltamos aqui a ostensiva
operação policial - com a
mobilização de 192 homens, uso de
extenso arsenal de armas e cachorros
- empreendida no dia 03 de maio de 2004 para despejo e
demolição
das casas de 14 famílias que
resistiram até os últimos momentos
no povoado de São Sebastião do Soberbo.
Por
fim, no resgate dos episódios mais
emblemáticos que marcaram as
violações de direitos humanos
sobre os atingidos, encontra-se a
situação vivenciada pelo
morador João Caetano dos Santos
-
obrigado a residir dentro do
canteiro de obras da barragem, com
acesso à sua residência controlado
pelo consórcio -
e desaparecido desde o dia 09
de fevereiro de 2003 em
circunstâncias até o momento não
apuradas pelas autoridades
policiais.
As
circunstâncias do desaparecimento
de João Caetano e a morosidade nas
investigações policiais
João Caetano dos Santos, 57 anos, conhecido como Gabundo, morava
sozinho numa pequena casa na
localidade Córrego da Candonga,
s/nº, zona rural, onde cultivava
plantações e cuidava de suas
poucas cabeças de gado. O terreno,
herdado dos pais , pertencia
a
ele e aos quatro irmãos,
que lhe cederam suas partes
para
usufruto e ainda o ajudaram a
construir a casa.
Em função da implantação da barragem, o consórcio conseguiu
adquirir as áreas pertencentes aos
irmãos do sr. João Caetano, mas
este não quis vender a sua.
Ofereceram-lhe então o valor de R$
1500,00 (hum mil e quinhentos reais)
para mudar-se para alguns metros
acima, a fim de que a construção
da barragem não fosse obstruída.
Ele aceitou, mas continuou a morar
dentro do campo de obras da
hidrelétrica, todo cercado e cheio
de máquinas transitando. Para
entrar ou sair de casa, acabou tendo
que se submeter às normas do
consórcio e passou a usar um
crachá de identificação da
empreiteira OAS, construtora a obra.
Com isso, teve seu direito de ir e
vir tolhido, grosseiramente
controlado em todos os seus passos
pelos vigilantes da empreiteira que
cuidavam da área.
Há mais ou menos dois anos e meio atrás, o casal Sr. José da
Silva Bazola (conhecido como Lilito)
e a sra. Maria da Silva Bazola e
seus 2 filhos vieram para trabalhar
na obra e a empreiteira OAS teria pedido à João que
hospedasse o
casal, com o que o mesmo, com
sua natureza pacata e solícita,
prontamente concordou.
Com o tempo a convivência foi se
complicando e sr. João passou a
reclamar constantemente para sua
irmã Luzia Egídia de Souza de
muitos conflitos com o casal, que
estava perdendo sua privacidade e
que a esposa de José Bazola estava
querendo impor-lhe ordens na sua
própria casa.
No dia 10 de fevereiro à noite, o sr. José Bazola enviou recado
aos familiares de João Caetano
comunicando seu desaparecimento.
Relatou que o sr. João saiu de casa
na madrugada do dia 09/02/2003, por
volta de 1 hora,com um cobertor
vermelho, reclamando de fortes dores
na perna, dizendo que iria pescar e
não mais retornou.
Segundo Pedro Caetano, quando foi à
casa de seu irmão com a polícia
para saber o que tinha acontecido,
José Bazola explicou tudo o que
tinha acontecido como se o mesmo
tivesse morrido e que deu
informações muito contraditórias,
disse que o mesmo tinha
saído para pescar, em outros
momentos que
teria saído dizendo que
queria morrer,
que estava sentindo dor nos
dentes, outra dor nas pernas.
No dia 11 de fevereiro de 2003, os familiares registraram a
ocorrência na 12a
Delegacia Regional de Minas Gerais,
unidade de Ponte Nova. À primeira
vista, entretanto, as autoridades
não tomaram nenhuma medida.
No dia 21 de fevereiro de 2003, o detetive da polícia civil de
Santa Cruz do Escalvado, Edney Lima
de Paula, informou à 12a Delegacia
de Polícia que “ para entrar ou
sair do terreno a usina precisa-se
passar por portarias onde ficam
funcionários controlando o fluxo de
pedestres e veículos”, o
que levou os detetives
entrevistarem os
funcionários sobre o
desaparecimento de Gabundo. Muitos
não souberam declinar sobre o
paradeiro do mesmo. Pelo fato de
algumas pessoas terem afirmado que
viram Gabundo andando de cavalo
pelas redondezas, os detetives
concluem que “parece-nos
improvável que as suspeitas dos
familiares tenham fundamento, pelo
menos quanto ao possível crime ter
ocorrido na madrugada de sábado
08/02 para domingo 09/02, já que
duas testemunhas afirmam ter visto o
desaparecido na segunda feira
10/02/2003.
Estranhamente, no dia 14 de março de 2003, o diretor-Presidente do
consórcio Candonga, Roberto
Martins, afirmou que o consórcio
nunca tinha sido procurado pelas
autoridades policiais e revelou-se
surpreso por ser procurado para
falar sobre o caso,
embora João tivesse um cartão de
autorização para circular no
canteiro de obras e toas suas
entradas e saídas fossem
registradas pelos vigilantes.
Somente no dia 03 de abril de 2003, a partir do boletim de
ocorrência nº 31/03, originário
do Destacamento Militar de Santa
Cruz do Escalvado, foi instaurado o
procedimento investigativo por ordem
do delegado Gelson José Pedra, para
apurar o desaparecimento suspeito de
João Caetano.
Desde então, porém, o inquérito
policial 09/03 desenrolou-se muito
lentamente, limitando-se, no
máximo, à tomada de depoimentos
por termo, que nunca esclareceram
muito os fatos.
Diante da inoperância e da falta de
providências em relação ao
desaparecimento de João Caetano,
outros atingidos por barragens e
organizações locais passaram a
realizar uma série de
manifestações a fim de dar
repercussão ao
fato
e cobrar ações ágeis e
efetivas às autoridades
competentes. Assim é que realizaram
um ato público na Assembléia
Legislativa de Minas Gerais no dia
13 de março de 2003;
fizeram circular várias notas na
imprensa local e regional;
enviaram cartas ao delegado de Ponte
Nova, Gelson José Pedra. Também
parlamentares, por provocação dos
atingidos, se movimentaram: o
deputado estadual Padre João Carlos
Siqueira enviou no dia 19 de março
de 2003 ofício à Secretaria de
Estado de Defesa Social solicitando agilização no inquérito;
o deputado federal César Medeiros
enviou ofício no dia
15 de maio à secretaria
Especial de Direitos Humanos
comunicando a inércia
das autoridades locais e
regionais;
em 06 de junho de 2003 a
Secretaria Especial de Direitos
Humanos enviou ofício ao chefe da
Polícia Civil de Minas Gerais, o
sr. Otto Teixeira Filho.
A ressonância dos protestos,
entretanto,
não
provocou mudança
de comportamento das
autoridades policiais.
As investigações continuaram praticamente paradas e não
resultaram em nada de concreto. A
própria manifestação do Delegado
de Ponte Nova, Gelson José Pedra,
proferida no dia 05/03/2004,
constante às fls 24 do inquérito
policial, bem assume a morosidade e
o descaso com que as investigações
têm sido realizadas.: “ tendo em
vista que em retorno de minhas
férias regulamentares encontrei os
presentes autos da forma que foram
por mim deixados, possivelmente por
falta de material humano, determino
a remessa à Justiça Pública da
Comarca, com solicitação de novo
prazo para prosseguimento das
diligências.” Mais uma vez,
porém, nenhuma medida foi
tomada.
Constam no inquérito policial 09/03 da
delegacia de Ponte Nova quatro
ordens de serviço, nenhuma delas
cumprida. Diversos foram os pedidos
de prorrogação de prazo para
conclusão. Até o presente, os
autos transitam entre a promotoria
pública, o judiciário e a
delegacia de polícia sem nenhum
andamento, à espera de ser
arquivado.
Para o inspetor Antero Marcos e o
chefe da polícia civil Gelson José
Pedra, o caso está encerrado: não
existe nenhum suspeito nesse caso
porque eles acreditam que João
Caetano não foi assassinado. De
acordo com os mesmos, os familiares
nunca apresentaram nada de concreto
para realização de maiores
investigações e que João tinha
problemas de saúde mental e
problemas alcoólicos que podem
explicar o que aconteceu.
Apesar de algumas evidências em
contrário, eles nunca pensaram em
concluir ou direcionar as
investigações para a
responsabilização do consórcio ou
saber mais sobre o possível
envolvimento de José Lilito com o
desaparecimento do amigo.
Coincidentemente, a posição do Delegado responsável
para o desaparecimento de
João Caetano é a mesma assumida
pelo consórcio
Candonga: mais recentemente,
em junho p.p., quando perguntado na
entrevista sobre o ocorrido, o
diretor de relações institucionais
da Alcan, Maurício Martins, disse
que se tratava de um problema de
saúde mental de João, que ele deve
ter sumido por aí por acaso, e que
o consórcio não tinha qualquer
responsabilidade sobre isso.
As informações prestadas apontam como suspeito mais forte o sr.
José
Bazola, tendo em vista
sobretudo seus depoimentos
contraditórios. A polícia, no
entanto, prefere ficar com a
hipótese mais cômoda e até hoje
não
comprovada de que João
Caetano teria sumido por vontade própria.
Familiares e amigos descartam
completamente essa hipótese, pois
pelo que conheciam de Gabundo, ele
jamais deixaria seus pertences, suas
plantações e cabeças de gado
assim ao léu.
De acordo com seu irmão
Pedro, João não tinha problemas
mentais ou tendências suicidas; era
um homem pacato, que criava seus
bois e plantava milho e mandioca,
como a maioria dos moradores de
Soberbo, e não poderia imaginar sua
vida sem a terra.
Aos familiares e amigos de João Caetano,
passado mais de um ano e meio do seu
desaparecimento, resta até hoje a
angústia para saber maiores
informações. Na situação, porém
- como em diversas acontecidas
durante o conturbado processo de
implantação da usina Candonga na
região - , percebe-se mais uma vez,
lamentavelmente, um comportamento
negligente e omisso das autoridades
policiais na realização das
investigações.
Agradecemos antecipadamente por sua atenção
dispensada às informações
relatadas e colocamo-nos à
disposição para maiores
informações através dos telefones
21 – 25477391(Centro de Justiça
Global /defensores@global.org.br) ,
31- 38811019 (MAB Ponte Nova
/atingidos@pontenet.com.br) e/ou
32-88171431 (Comissão Pastoral da
Terra).
Atenciosamente,
Andressa Caldas / Marie-Eve Sylvestre / Juliana Neves
Barros
Centro de Justiça Global
Padre Antônio Claret
Assessoria do Movimento dos Atingidos por Barragens –
regional Ponte Nova, Minas Gerais)
Sônia Maria Oliveira
Loschi
Comissão Pastoral da Terra (CPT- regional Campo das
Vertentes, Minas Gerais)
Paulo Henrique Viana
Núcleo de Assessoria às Comunidades
Atingidas por Barragens (NACAB)
A esse respeito,
vale mencionar o depoimento de
Antero Marcos, inspetor da
Polícia Civil em Ponte Nova, à
equipe do Centro de
Justiça Global
no dia 05 de junho de
2004, em que confessou ter sido
formalmente solicitado pela
Secretaria de Segurança
Pública de Minas Gerais para se
encarregar do trabalho de
identificação de lideranças
nas diversas mobilizações
realizadas: “a polícia civil
só participou das
reivindicações em 2003,
observando de longe e fazendo o
trabalho de identificação de
lideranças. Eu mesmo tirei
fotos para identificar as
pessoas envolvidas”. Fato este que revela o quão
absurdamente os agentes estatais
usurparam de suas funções
públicas para o exercício vil
da “arapongagem”.
Inadmissível, sob a ótica de
um estado democrático, que o governo do Estado, através de sua secretaria
de segurança pública, esteja
envolvido com práticas
persecutórias e de espionagem
contra defensores de direitos
humanos.
Entrevista de Pedro Caetano dos
Santos, 62 anos, à equipe da
Justiça Global , no dia
06 de junho de 2004, Nova
Soberbo.
Ainda de
acordo com a Fundação Estadual
do Meio Ambiente de Minas
Gerais, o consórcio não
poderia começar as obras sem a
total desocupação da área.