Justiça Global realiza IV Homenagem Maria do Espírito Santo Silva

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A cada ano, a Justiça Global homenageia defensoras de direitos humanos de todo o país como forma de lembrar os desafios enfrentados pelas mulheres na luta contra o machismo, o racismo, o classismo e outras formas de opressão. Para nós, reconhecer o papel dessas mulheres é também uma forma de fortalecer suas frentes, em movimentos como os de familiares de vítimas da violência do Estado, LGBTs, quilombolas e muitos outros. A IV Homenagem Maria do Espírito Santo Silva, realizada no Centro do Rio de Janeiro no dia 23 de março, foi concedida a oito mulheres. E, dentro de um contexto de avanços nos ataques às defensoras, houve uma grande homenagem também a Marielle Franco, executada por sua luta em 14 de março.

A história de Marielle esteve presente em todas as falas das defensoras, como forma de lembrar que sua luta continua viva nelas e em tantas outras mulheres do país. No início da homenagem, a Justiça Global fez questão de chamar ao palco Renata Souza, representando a equipe do mandato de Marielle na Câmara de Vereadores do Rio, e Monica Benício, companheira da defensora. A evocação do nome da defensora logo no começo da homenagem bastou para que uma longa salva de palmas tomasse conta do salão nobre do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS) da UFRJ, onde o evento acontecia.

Foto: Mario Campagnani
Luciana Pivato com Givânia Maria da Silva na Homenagem

Em sua fala de agradecimentos emocionada, Renata Souza ressaltou o que Marielle representa: «A gente tinha, a gente tem um projeto político para disputar essa sociedade. Eu acho que o que a Marielle representa é uma responsabilidade de todos nós. Eu reprito isso, que o que fizeram com a Marielle não fizeram à toa. Tentaram silenciar, tentaram calar quem estava representando a voz das favelas, negras e negros,  a voz de mães, daquelas que tem seus filhos mortos todos os dias. A voz de mulheres que são assassinadas todos os dias dentro de seus próprios lares. A voz das mulheres trans, a voz de lésbicas, a voz de LGBTs. A Marielle representava em seu corpo, sua voz, sua luta, a maioria oprimida dessa sociedade. Ela tinha a luta institucional, mas sabia que a luta é diária, que muitas outras mulheres têm em seu cotidiano. E essa luta continua, pois Marielle vive em todas nós».

A próxima homenageada da noite foi Victória Grabois, uma importante conexão para mostrar como o país passa por problemas estruturais, que mesmo a mudança de regimes políticos não deram conta de sanar. Uma das fundadoras do Grupo Tortura Nunca Mais, a professora Victória perdeu a família na Guerrilha do Araguaia, durante a Ditadura Civil Militar brasileira. Com uma camisa com o rosto de Marielle, ela fez questão de lembrar que o Estado, historicamente, não assumiu a responsabilidade pelos seus crimes: «Não podemos esquecer das mulheres jovens, trabalhadoras, camponesas, operárias. Durante a ditadura, tivemos 12 mulheres mortas e desaparecidas na Guerrilha do Araguaia, 32 mulheres mortas na guerrilha urbana. Com a redemocratização, achávamos que tínhamos conseguido a democracia, mas nunca se responsabilizou os assassinos do filho da Dalva, da Mônica, das pessoas da Guerrilhas do Araguaia. Nenhum governo do Brasil, depois da ditadura civil militar, teve a coragem política de abrir os arquivos da ditadura. Por isso que existem esses mandantes, esses homes nas milícias, homens no poder que hoje matam jovens feministas, faveladas. Precisamos continuar na luta pela abertura dos arquivos da ditadura, queremos a responsabilização dos mandantes do crime de Marielle e Anderson. Pela vida, pela paz, tortura nunca mais!»

Uma figura histórica na luta das mães de vítimas de violência do Estado, Maria Dalva Correia da Silva, foi a próxima a receber a homenagem. Ela, que perdeu o filho na Chacina do Borel, em 2003, foi uma das fundadoras da Rede de Comunidades e Movimentos Contra a Violência. Também lembrando dos momentos ao lado de Marielle na luta das mães, Dalva – como é chamada – falou sobre a responsabilidade do Estado nas mortes nas favelas:»Eu sempre digo que não é o policial que mata nossos filhos. Ele só puxa o gatilho, mas quem mata é o Estado. A gente tem que estar combatendo o Estado que é facista, que é genocida, que não respeita o nosso luto.  A bala que perfurou o Tiago, que perfurou a Marielle, perfurou todos nós.  Mas, se a tristeza é grande, a esperança é muito mais forte.  A semente que a Marielle semeou é forte, é resistente. Porque a favela é resistência», disse Dalva em fala emocionada.

A luta das mulheres negras nas grandes cidades está certamente junta as das que estão no campo, como mostrou a fala de Givânia Maria da Silva, quilombola de Conceição das Criolas, em Pernambuco, e uma das fundadoras da  Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq). Ela lembrou do período em que também teve um cargo no legislativo de sua cidade, e como teve que enfrentar ameaças por isso. «A nossa luta começou com as nossas resistências  desde o momento em que nos arrancaram de nosso lares, nosso lugares e nos colocaram aqui como eternas estranhas. Nossos corpos e cabelos incomodam. É estranho ter uma mulher negra no Parlamento do Rio de Janeiro. Foi estranho ter uma mulher quilombola em um Parlamento. Para as mulheres negras defender a vida é mais do que uma militância, é uma necessidade. Eu recebo essa homenagem em nome delas. O Estado vai tentar nos matar, mas nós vamos continuar a existir».

Foto: Mario Campagnani
Gizele Martins e Alessandra Makkeda na Homenagem

A militância das mulheres trans é sempre lembrada na Homenagem Maria do Espírito Santo Silva. Se para as cis os desafios postos pela sociedade patriarcal já são imensos, as trans enfrentam outros mais, com suas existências sendo constantemente atacadas. Neste ano, Alessandra Makkeda foi homenageada, lembrando sua trajetória de luta em diversos espaços, como o  Fórum Nacional de Pessoas Trans Negras. «Durante muito tempo, mulheres trans não estariam neste lugar.  Nós não contamos para nada nessa soidedade, ainda estamos aí morrendo, ainda estamos sendo assassinadas. É fácil muita gente não gostar da gente, nos matar. É muito fácil a gente ser demitida do nosso primeiro emprego, por o chefe não gostar da gente, por as gente ser travesti. Estar aqui representa um avanço muito grande no reconhecimento dessa nossa luta por direitos.  Eu me sinto representando milhares de pessoas trnas que começaram a ter sua diginidade reconhecida», afirmou Makkeda.