Megaeventos ameaçam comunidade tradicional no Rio de Janeiro

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Famílias do Alto Camorim querem reconhecimento de território quilombola em área de interesse do mercado imobiliário, próxima ao Parque Olímpico.

Adilson Almeida e Maraci Soares lutam pelo reconhecimento do Alto Camorim como território quilombola. (foto: Renato Cosentino)

No último domingo (23), foi realizada mais uma atividade de resistência cultural dos moradores do Alto Camorim, em Jacarepaguá, que há dez anos reivindicam junto ao Incra o reconhecimento do local como território remanescente de quilombo. A ação teve o objetivo de reafirmar a luta das famílias pela regularização fundiária, pelo direito de cultivar a terra e pela construção do Centro de Desenvolvimento Cultural Quilombola do Camorim.

O dia começou cedo com um café da manhã agroecológico oferecido pela Associação de Agricultores de Vargem Grande. Antes da tradicional feijoada, o encontro foi embalado por rodas de conversa sobre a história de Jacarepaguá. A atividade contou com representantes de outras comunidades, como Vila Autódromo e Santa Marta. “A gente está aqui gritando a todo momento que o Alto Camorim tem a sua história”, disse Maraci Soares, uma das lideranças do grupo. “Queremos esse reconhecimento e não vamos desistir”, enfatizou.

O reconhecimento como território quilombola é mais um passo na luta pela preservação do local. “Os outros países que realizaram grandes eventos perderam suas identidades? Então não há nada que justifique essas ações. É um projeto de quem para quem?”, questionou Bernadete Montesano, da Rede Carioca de Agricultura Urbana. “O nosso projeto de viver aqui é produzindo alimentos e entendendo a dinâmica desse lugar e dessa floresta. Essas áreas onde estão os agricultores são de grande cobiça”, ressaltou.

RJZ Cyrela planeja construir condomínios ao lado de igreja histórica

A Baixada de Jacarepaguá é hoje o centro da reestruturação urbana que o Rio de Janeiro vem passando para a preparação das Olimpíadas, e muitas comunidades estão ameaçadas pelo avanço dos empreendimentos imobiliários na região. O Alto Camorim é um local histórico, onde se localiza a Igreja São Gonçalo de Amarante, de 1625, no acesso ao Parque Estadual da Pedra Branca, uma das maiores florestas urbanas do mundo.

No início do ano, uma grande área foi devastada pela Living Construtora, marca da RJZ Cyrela, sem respeitar as árvores centenárias do Maciço da Pedra Branca. Segundo os moradores, os tratores também aterraram o que sobrou de um dos prováveis locais da senzala da Fazenda Camorim, do início do século XVII, e o temor é que, pela proximidade, a obra possa comprometer a igreja. Uma denúncia foi feita à Ouvidoria do Ministério Público, ressaltando o grave desrespeito à memória, à cultura e ao patrimônio histórico e ambiental carioca.

Em nota, a construtora informou que “possui as licenças de demolição e remoção de árvores necessárias, expedidas pelos órgãos competentes”. Ainda segundo a Living Construtora, “não existia nenhuma ruína no imóvel”, e “todas as medidas compensatórias originadas da licença ambiental estão sendo devidamente cumpridas”.

Os moradores questionam: “É uma pena a gente perder um sítio arqueológico que foi todo descaracterizado por essas escavações da Cyrela. Não é só trazer o progresso pra cá, mas sim manter uma história que existe nessa localidade, que é o Quilombo do Camorim”, disse Adilson Almeida, presidente da Associação Cultural do Camorim. “Eles querem acabar com a nossa identidade começando a destruir marcas desse território. Mas a nossa memória não vai ser destruída”, concluiu Maraci.

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