Brasil registra violência política a cada nove horas no 1º turno; mulheres são quase 60% das candidaturas atingidas

 

Pesquisa da Justiça Global e da Terra de Direitos identificou 134 episódios de violência política durante os 50 dias de campanha eleitoral de 2026. No período pré-eleitoral, foram registrados 354 casos em 22 meses, o equivalente a uma ocorrência a cada 44 horas. Mulheres, pessoas negras e pessoas trans estão entre os grupos mais atingidos, enquanto a baixa responsabilização dos autores mantém a violência como uma ameaça permanente à participação política e à democracia.

 

Violência política aumenta durante a campanha eleitoral

Durante os 50 dias de campanha eleitoral do primeiro turno das eleições de 2026, entre 16 de agosto e 4 de outubro, foram registrados 134 casos de violência política no Brasil, o equivalente a uma ocorrência a cada nove horas. O número representa um aumento em relação ao primeiro turno das eleições de 2022, quando foram registrados 121 casos.

Os dados fazem parte da 4ª edição da pesquisa Violência Política e Eleitoral no Brasil, realizada pelas organizações de direitos humanos Terra de Direitos e Justiça Global.

A frequência da violência durante a campanha foi cinco vezes maior do que no período sem disputa eleitoral. Entre 28 de outubro de 2024 e 15 de agosto de 2026, ao longo de 22 meses, foram registrados 354 episódios, uma média de um caso a cada 44 horas.

O período pré-eleitoral foi o mais violento dos dez anos de monitoramento da pesquisa. O total representa um aumento de 18,4% em relação aos 299 casos registrados entre 1º de novembro de 2022 e 15 de agosto de 2024. Mesmo em 2025, ano sem eleições, foram registrados 225 episódios de violência política.

Os dados demonstram que a violência não se restringe aos períodos eleitorais. Ela também atinge quem exerce mandatos e cargos públicos no cotidiano de suas atividades, especialmente no âmbito municipal.

“A violência política é um fenômeno permanente, que não se restringe aos períodos eleitorais e se manifesta sobretudo nos municípios. Essa violência atinge diretamente quem ocupa espaços de decisão e exerce poder sobre contratos e recursos públicos. A pesquisa mostra que inclusive grupos criminosos e até mesmo policiais estão entre os responsáveis pelos atos de violência.

Estamos diante de um cenário que ameaça não apenas a vida de representantes políticos, mas também o funcionamento das instituições democráticas. O Estado brasileiro precisa desenvolver e aperfeiçoar mecanismos eficazes de prevenção, proteção, investigação e responsabilização para enfrentar essa violência de forma contínua”, destaca Glaucia Marinho, diretora-executiva da Justiça Global.

Quem são as principais vítimas da violência política?

O perfil das vítimas mudou entre o período pré-eleitoral e o primeiro turno. Antes da campanha, a violência se concentrou principalmente em agentes políticos municipais, como vereadores e prefeitos. Durante o primeiro turno, os episódios passaram a atingir mais pessoas que disputavam ou exerciam cargos nas esferas federal e estadual.

Dos 134 episódios registrados no primeiro turno, 102 foram dirigidos a pessoas com candidaturas registradas, o equivalente a 76,1% do total. Os outros 32 casos atingiram pessoas que não disputavam as eleições: 19 vereadores, três prefeitos, um vice-prefeito e dois secretários. Também foram registrados quatro casos contra dirigentes partidários e dois contra sedes do PT e a equipe de uma candidata.

Considerando as esferas de atuação, 54 episódios (40,3%) atingiram pessoas que disputavam ou exerciam cargos federais. Outros 48 casos (35,8%) tiveram como alvo pessoas que disputavam ou exerciam cargos estaduais, enquanto 25 episódios (18,7%) atingiram pessoas que disputavam ou exerciam cargos municipais.

No período pré-eleitoral, o cenário era diferente: 96,3% dos episódios ocorreram contra pessoas que já exerciam mandatos ou cargos públicos, e 63% se concentraram na política municipal.

Vereadores e lideranças locais estão entre os mais vulneráveis

Ao longo dos 22 meses do período pré-eleitoral, vereadores e vereadoras foram vítimas em 176 dos 354 episódios registrados, correspondendo a 49,7% do total. Considerando o tamanho das bancadas eleitas em 2024, foram registrados, em média, três episódios de violência política para cada mil vereadores eleitos.

A letalidade também se concentra na política municipal. Dos 28 episódios com intenção letal registrados no período, 24 atingiram agentes políticos locais. Foram 11 assassinatos e 17 atentados, dos quais dez assassinatos e 14 atentados tiveram como vítimas representantes municipais. Não foi registrado nenhum assassinato entre agentes políticos federais.

No primeiro turno de 2026, os dois assassinatos registrados também tiveram como vítimas agentes relacionados à esfera municipal: um vereador e um secretário municipal.

Partidos de esquerda estão entre os principais alvos

A análise por partido no período pré-eleitoral mostra que 30,2% dos episódios atingiram representantes do PT e do PSOL.

No caso do PSOL, 16 das 80 pessoas eleitas pela legenda foram vítimas de violência política, o equivalente a 20% da bancada. Contra representantes do PT nas câmaras municipais, foram registrados 26 episódios. Na sequência, aparecem o PP, com 17 casos; o PL, com 15; e o União Brasil, com 14.

Considerando a proporção de casos em relação ao número de vereadores eleitos, o levantamento identificou uma taxa de 287,5 episódios por mil eleitos do PSOL no período pré-eleitoral.

Mulheres são quase 60% das candidaturas atingidas

Embora representem 34,85% das candidaturas registradas, segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), as mulheres foram vítimas em 60 dos 102 episódios de violência política dirigidos a pessoas candidatas durante o primeiro turno de 2026. Isso corresponde a 58,8% dos casos contra candidaturas.

Considerando todos os 134 episódios registrados durante os 50 dias de campanha, 70 tiveram mulheres cisgênero, trans e travestis como vítimas, o equivalente a 52,2% do total. Os homens foram vítimas em 61 casos. Os três episódios restantes tiveram como alvos sedes partidárias e uma equipe de campanha.

A proporção de mulheres entre as vítimas aumentou em relação às edições anteriores da pesquisa. Elas representavam 41,3% das vítimas no período pré-eleitoral de 2020 a 2022, 38% no período eleitoral de 2022 e 38,4% entre 2022 e 2024.

No período pré-eleitoral mais recente, as mulheres cisgênero, trans e travestis já correspondiam a 50,6% das vítimas, apesar de ocuparem apenas cerca de 18% das cadeiras legislativas do país, segundo o TSE.

“As mulheres são os alvos preferências da violência que intimida e desqualifica. E o aumento e acirramento da violência política de gênero é um reflexo também do baixíssimo índice de responsabilização. É urgente também que se exija repostas dos partidos políticos, pois as candidaturas de mulheres não podem representar apenas o cumprimento de cotas e o aumento de financiamento”, destaca Gisele Barbieri, coordenadora do Setor de Incidência da Terra de Direitos.

Violência contra mulheres é marcada por misoginia, racismo e transfobia

As diferenças entre homens e mulheres também aparecem nos tipos de violência registrados durante o primeiro turno.

Entre os 97 episódios de violência simbólica, que incluem ameaças e ofensas, 60 tiveram mulheres como vítimas, correspondendo a 61,9%. Já entre os 32 episódios de violência física, que incluem agressões, atentados e assassinatos, as mulheres foram vítimas em 21,9% dos casos.

Os dois assassinatos registrados no primeiro turno tiveram homens como vítimas. As 12 ocorrências envolvendo armas de fogo também atingiram exclusivamente homens. Em contrapartida, as sete ameaças de violência sexual identificadas pela pesquisa tiveram mulheres como vítimas.

Entre os 70 episódios de violência política contra mulheres, 53 (75,7%) apresentaram algum marcador discriminatório. Foram identificados machismo ou misoginia em 45 casos, racismo em nove e transfobia em cinco.

No período pré-eleitoral, a diferença entre os tipos de violência também foi evidente. Enquanto os homens foram alvos em 77,2% dos episódios de violência física, as mulheres foram maioria entre as vítimas de violência simbólica, representando 58,3% dos casos. As 31 ameaças de violência sexual e os 67 episódios com conteúdo de conotação sexual ou comentários sobre corpo e aparência tiveram exclusivamente vítimas femininas.

O levantamento pré-eleitoral registrou ainda 27 episódios coletivos de violência política. Em sete deles, as vítimas eram exclusivamente mulheres, e em dois a violência atingiu toda a bancada feminina.

“Enquanto os homens são atacados por sua atuação política, mulheres, pessoas negras e pessoas trans enfrentam também o racismo, o machismo e a transfobia que estruturam a sociedade brasileira. Quando essas formas de discriminação se cruzam, elas se reforçam e ampliam as barreiras à participação política, tornando ainda mais difícil o acesso e a permanência desses grupos nos espaços de poder”, observa Glaucia Marinho.

Mulheres negras estão entre as principais vítimas de ataques repetidos

A dimensão racial revela desigualdades importantes. No primeiro turno, pessoas negras, pretas e pardas representaram 44,8% das vítimas de violência política, totalizando 60 pessoas. Entre as 70 mulheres atingidas, 19 eram mulheres pretas, mais de uma em cada quatro. Mulheres negras foram vítimas em 24,6% dos episódios de violência política, embora representassem 18,2% das candidaturas. Dos 13 episódios em que o racismo apareceu explicitamente como marcador da violência, oito tiveram mulheres pretas como vítimas.

A violência também se caracteriza pela recorrência. Durante os 50 dias de campanha do primeiro turno, 11 pessoas foram vítimas de episódios repetidos, nove delas mulheres.

No período pré-eleitoral, foram registrados 32 casos de ataques repetidos ao longo dos 22 meses, dos quais 23 tiveram mulheres como vítimas. Entre as mulheres, uma em cada três era preta: 64 das 179 vítimas. Entre os homens, a proporção era de um em cada nove. Mulheres foram vítimas em 64 dos 84 episódios registrados contra pessoas pretas, incluindo 11 mulheres trans ou travestis. O levantamento identificou ainda quatro episódios contra mulheres indígenas e um contra uma vítima amarela.

As mulheres negras, considerando pessoas pretas e pardas, representaram 22,9% dos episódios do período pré-eleitoral, com 81 dos 354 casos, e responderam por mais da metade dos episódios de violência repetida.

Entre os episódios de violência contra mulheres no primeiro turno, Erika Hilton (PSOL-SP), Thabatta Pimenta (PV-RN), Natália Bonavides (PT-RN) e Raquel Lyra (PSD-PE) foram alvo de três episódios cada uma durante a campanha.

No período pré-eleitoral, quatro ameaças assinadas por grupos ou perfis declaradamente neonazistas ou supremacistas tiveram como alvos mulheres pretas em quatro estados de diferentes regiões do país: a prefeita Professora Nilda (RN) e as vereadoras Alice Carvalho (RS), Vivi Reis (PA) e Adriana Gerônimo (CE).

Em um dos casos, a renúncia ao cargo foi apresentada como condição para que as agressões cessassem. Em Belém, uma ameaça assinada por um grupo que se autodenomina “Nova Ordem Ariana” reuniu ameaças de estupro e morte e menção a massacre. Em Fortaleza, uma mensagem descreveu armas e o modo de execução de um duplo assassinato à porta da casa de uma parlamentar, ameaçando também sua esposa. Segundo a pesquisa, esses episódios representam o que a base tem de mais próximo de violência racial organizada, sem equivalente dirigido a vítimas de outro perfil.

Em junho de 2025, todas as deputadas estaduais da Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp) foram alvo de um e-mail coletivo com ameaças de morte e estupro e ataques misóginos, racistas e capacitistas, evidenciando a tentativa de atingir uma coletividade.

“A violência política contra as mulheres é sistêmica e evidencia o quanto o nosso sistema democrático impede o acesso das mulheres aos espaços de poder e decisão”, destaca Gisele Barbieri.

Ela observa que a violência se intensifica ao longo dos anos e, na maioria dos casos, fica impune, chegando a colocar em risco não apenas parlamentares e candidatas, mas também seus familiares.

“Precisamos de respostas urgentes para esses crimes, exigindo do Estado a aplicação das sanções previstas na Lei 14.192, aprovada em 2021, para prevenir, reprimir e combater a violência política contra a mulher.

Além de ampliar o escopo das legislações prevendo punições para as especificidades da violência contra as mulheres transexuais e travestis e mulheres negras que atingem altos índices de perversidade e nesta edição, inclusive, foram as únicas vítimas de ameaças de grupos ou perfis declaradamente neonazistas”, complementa Barbieri.

Na internet, mulheres são 81% das vítimas

Durante o primeiro turno, a violência política contra mulheres também se concentrou no ambiente virtual. Dos 42 episódios registrados na internet, 34 tiveram mulheres como vítimas, o equivalente a 81%. Os homens foram vítimas em oito casos.

Fora do ambiente virtual, foram registrados 92 episódios, dos quais 36 tiveram mulheres como vítimas, correspondendo a 39,1%.

Embora a internet tenha concentrado 42,4% dos episódios no período pré-eleitoral, essa proporção caiu para 31,3% durante o primeiro turno. As ruas passaram a concentrar a maior parte dos casos: 71 dos 134 episódios ocorreram durante atividades de campanha ou eventos públicos.

O levantamento pré-eleitoral registrou 150 episódios no ambiente virtual, correspondendo a 42,4% dos 354 casos. Em 48% dessas ocorrências, a autoria dos ataques não pôde ser identificada, evidenciando o peso do anonimato na disseminação da violência.

“Os dados trazem importantes achados para identificar os ambientes em que agentes políticos estão mais vulneráveis e pensar medidas de proteção. Em épocas de eleição, é nas ruas que se registra a maior parte dos casos. Quando eleitas, essas pessoas passam a ser vítimas de violências principalmente nos seus locais de atuação, seja no parlamento ou no Executivo”, aponta Gisele Barbieri.

Para Barbieri, a violência também revela os limites da participação política no ambiente digital. “Nas redes ou nas ruas, a violência está sendo utilizada para intimidar e impedir que determinadas candidaturas e propostas possam se expressar.”

A coordenadora destaca a necessidade de responsabilizar as plataformas digitais pela circulação de conteúdos violentos.

Quando o agressor é adversário político, mulheres são as principais vítimas

A dimensão de gênero fica ainda mais evidente nos episódios em que a autoria da violência foi atribuída a adversários políticos, como parlamentares, governantes ou outros candidatos. Dos 21 casos com esse perfil registrados no primeiro turno, 20 tiveram candidatas ou parlamentares mulheres como vítimas.

Casos envolvendo Macaé Evaristo (PT-MG), Brisa Bracchi (PT-RN), Andréia de Jesus (PT-MG) e Natália Bonavides (PT-RN) ilustram diferentes formas de violência política contra mulheres durante a campanha.

Macaé Evaristo reuniu comentários publicados em suas redes sociais que continham racismo, misoginia e intolerância religiosa. Entre as mensagens havia referências à sua aparência e à sua condição de mulher negra, além de ameaças e ataques de cunho religioso.

Brisa Bracchi recebeu um e-mail com exposição de CPFs e endereços seus e de familiares, referência à Ku Klux Klan e ameaça de estupro corretivo. A mensagem foi enviada por uma pessoa que utilizava um codinome associado a um grupo neonazista. Brisa está entre as cinco mulheres negras que sofreram ataques repetidos durante a campanha.

Andréia de Jesus, candidata a deputada estadual por Minas Gerais e mulher negra, relata ter sofrido mais de 4 mil ameaças e ataques desde que ingressou na política.

Natália Bonavides obteve medida protetiva depois de ser abordada na rua por um adversário que gravava um vídeo no qual afirmava que ela “não teria mais paz”.

Autores e vítimas podem voltar a ocupar os mesmos espaços institucionais

A violência política de gênero também pode ter consequências para a convivência institucional após as eleições.

Considerando o período pré-eleitoral e o primeiro turno, a pesquisa identificou 192 mulheres cis e trans atingidas por violência política e 54 parlamentares, governantes ou candidatos apontados como autores desses episódios.

Entre as 192 mulheres vítimas, 139 disputaram algum cargo nas eleições de 2026 e 62 foram eleitas, o equivalente a 45%. Dos 54 autores identificados, 36 disputaram as eleições e 22 foram eleitos.

Em sete casos, autor e vítima foram eleitos para a mesma casa legislativa. É o caso de Erika Hilton (PSOL) e Lucas Pavanato (PL), ambos eleitos para a Câmara dos Deputados.

A Câmara dos Deputados que tomará posse em 2027 terá 11 autores identificados de episódios de violência contra mulheres e 26 mulheres que já foram vítimas de violência política praticada por eles ou por outros agressores.

Os dados mostram que a violência política de gênero não necessariamente termina com a eleição. Em alguns casos, autores e vítimas voltarão a ocupar os mesmos espaços institucionais, reforçando a responsabilidade dos partidos políticos e das casas legislativas na prevenção, responsabilização e enfrentamento desse tipo de violência.

Agentes públicos estão entre os autores identificados

Durante o primeiro turno, em 26 episódios (19,4% do total de 134), o autor identificado era um agente público. Desse conjunto, 14 eram parlamentares ou governantes, sete eram agentes de segurança e cinco eram outros agentes públicos.

No período pré-eleitoral, o levantamento identificou 64 episódios (18,1% do total de 354) em que o agressor também possuía mandato eletivo ou cargo público. Quando somados policiais e outros agentes estatais, os ataques cometidos por representantes do próprio Estado chegaram a quase um terço dos casos, 29,9%. Em 52 desses episódios, as agressões ocorreram no próprio local de trabalho parlamentar, como plenários e sessões de comissões.

Um caso emblemático envolve a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, que, em menos de quatro meses, foi alvo de duas ofensas e uma ameaça por parlamentares. Em um evento público, um senador afirmou que era difícil “tolerar Marina seis horas e dez minutos sem enforcá-la”. Em outra ocasião, um senador cortou o microfone da ministra e mandou que ela “se ponha no seu lugar”. Um deputado também a chamou de “adestrada” durante uma audiência na Câmara.

A pesquisa pré-eleitoral identificou ainda 26 episódios (7,3% do total) com indícios de envolvimento de facções criminosas ou do crime organizado, especialmente no Ceará, com 12 casos, no Rio de Janeiro, com quatro, e em São Paulo, com três. Nesses episódios, os alvos eram majoritariamente prefeituras e órgãos relacionados, como secretarias municipais.

Em Cariré (CE), prefeito, vice-prefeito e vereadora foram ameaçados simultaneamente. Em Meruoca, duas autoridades da mesma gestão foram ameaçadas no mesmo dia. Em Jaguaribara, prefeito e vice-prefeito receberam ameaças na mesma semana. Em Mossoró (RN), um assessor foi assassinado e um vereador sofreu um atentado no mesmo momento e local.

Segundo a análise, os casos indicam um padrão de captura de território, e não apenas de retaliação pessoal.

Ameaças e ofensas são as formas mais recorrentes de violência

Durante o primeiro turno de 2026, a ameaça foi o tipo de violência política mais recorrente, com 64 casos registrados. Na sequência, aparecem 33 episódios de ofensa, 19 de agressão física, 11 atentados, cinco casos de criminalização e dois assassinatos.

No período pré-eleitoral, as ameaças também foram a forma de violência mais frequente, com 193 registros. Foram identificados ainda 71 episódios de ofensa, 51 de agressão física, 17 atentados, 11 assassinatos, seis casos de criminalização e cinco invasões.

Os números evidenciam a continuidade da violência política mesmo fora do calendário eleitoral e a diversidade das formas utilizadas para intimidar, ameaçar e impedir a atuação de representantes políticos e lideranças.

A impunidade mantém a violência política

Apesar da identificação de autores em parte dos episódios, a responsabilização permanece baixa.

Até o encerramento da coleta dos dados do primeiro turno, nenhum dos 134 episódios registrados havia resultado em punição efetiva. As atuações da Justiça Eleitoral identificadas durante a campanha, em pelo menos oito casos, limitaram-se a medidas de urgência, como remoção de vídeos, suspensão de perfis e concessão de medidas protetivas. Essas providências podem interromper a violência em curso, mas não representam, por si só, a responsabilização dos autores.

No período pré-eleitoral, 84,7% dos casos, ou 300 dos 354 episódios, foram objeto de denúncia formal ou pública. Ainda assim, apenas 46 casos (13%) contavam com apuração judicial ou policial em curso, e somente nove episódios (2,5% do total) resultaram em punição efetiva dos autores.

Os dados revelam uma distância entre a denúncia dos episódios e a responsabilização de quem pratica a violência. A ausência de respostas efetivas contribui para a continuidade das agressões e amplia os riscos enfrentados por quem exerce mandatos, disputa eleições ou participa da vida política.

Para Terra de Direitos e Justiça Global, os mecanismos institucionais de proteção existentes são insuficientes porque se concentram exclusivamente no período de campanha eleitoral e na figura de candidatas e candidatos. O levantamento demonstra a urgência de políticas públicas contínuas de proteção ao exercício dos mandatos parlamentares durante todo o ano, com atenção especial às vereadoras e às lideranças locais.

O enfrentamento da violência política exige medidas permanentes de prevenção, proteção, investigação e responsabilização, além da atuação dos partidos políticos, das instituições públicas e das plataformas digitais.

Sobre a pesquisa

A 4ª edição da pesquisa Violência Política e Eleitoral no Brasil, realizada por Terra de Direitos e Justiça Global, acompanha episódios de violência política no país e busca evidenciar como essas práticas afetam a participação política, a democracia e o exercício de direitos.

Com dados mapeados desde 2016, o levantamento reúne episódios de violações contra agentes políticos e lideranças. Considerando os dados divulgados em 7 de outubro de 2026, a série histórica acumulava 2.071 episódios.

A coleta é realizada por meio do monitoramento e da checagem diária da cobertura jornalística nacional e regional, além do cruzamento com registros oficiais e denúncias públicas.

Os dados do primeiro turno integram o levantamento de 2026. Os resultados consolidados, incluindo os episódios registrados durante o segundo turno, serão divulgados em novembro.