|  Por Mario Campagnani

Caso Peru – Os danos causados pelas empresas Odebrecht e Vale

FOTO: Renato Cosentino

População peruana se mobiliza para denunciar ação da Vale no país

A atuação de empresas estrangeiras no Brasil é conhecida e, diversas vezes, criticada, por trazer mais prejuízos do que benefícios para o país e as populações dos locais onde elas se instalam. Esse modelo de negócios, todavia, não é exclusividade de empresas do Norte Global que atuam aqui e em outros países em desenvolvimento. As próprias empresas brasileiras têm um longo currículo de projetos no exterior que causam os mesmos tipos de impactos. No novo relatório “Mineração e Violações de Direitos – Peru”, a Justiça Global analisa e denuncia a atuação das brasileiras Odebrecht e Vale. A primeira, pela construção da Hidrelétrica de Chadín 2, na região de Cajamarca, e a segunda pela mineração de fosfato em Sechura.

O trabalho de campo e a escrita do relatório foram feitos antes dos escândalos sobre a atuação da Odebrecht no Peru que, no ano passado, levaram à prisão do ex-presidente Ollanta Humala, além de graves acusações contra o atual presidente, Pedro Pablo Kuczynski. A publicação mostra de forma contundente como as atividades da empreiteira brasileira há anos já levantavam suspeitas, não apenas na questão de como os contratos foram assinados, mas também pela total falta de preocupação com as populações atingidas por esses projetos. O relatório destaca, por exemplo, que, já em 2014, 40% da superfície do Peru se destinava a concessões para mineração, petróleo, gás e madeira, sendo que 96% desse território reservado a essas atividades estavam habitados por povos indígenas e comunidades locais. Para viabilizar esse agressivo plano de exploração mineral, a construção de hidrelétricas é um fator primordial.

O projeto de Chadín 2 é o primeiro de 20 hidrelétricas previstas no Rio Marañón,  mas se encontra parado atualmente por causa dos escândalos, sendo que o governo peruano ainda não desistiu da proposta. Para completar, ainda existem mais dois projetos de usinas no Rio Marañón, a Rio Grande 1 e a Rio Grande 2, em contrato com a Odebrecht. Para evitar que os projetos saiam do papel, a população local já articula sua resistência, em movimentos como a Plataforma Interinstitucional Celendina (PIC) e a Frente de Defesa do Rio Marañón.

Baía de Sechura está contaminada pelo fosfato da Vale

Fosfato que polui terra, água e ar

Assinado em 2005, um acordo entre os então presidentes Alejandro Toledo e Luiz Inácio Lula da Silva, na cidade de Sechura, deu início ao projeto de exploração de uma jazida de fosfato em território peruano. A exploração comercial se iniciou em 2010, pelas mãos da brasileira Vale, com participação das multinacionais Mosaic, do Canadá, e Mitsui, do Japão. Os impactos logo surgiram. A colocação do fosfato em navios para exportação levantam e jogam no ar e na água uma grande quantidade do elemento. Os trabalhadores do porto da Petroperu, que fica ao lado do porto construído pela Vale, reclamaram formalmente da poluição, que os obrigou a se proteger com máscaras para realizarem suas atividades diárias.

O fosfato que cai no mar também causou impactos, entre eles a chamada eutrofização, que é o aumento dos nutrientes em um ecossistema, levando ao empobrecimento da diversidade. Os pescadores de Sechura logo começaram a reclamar de problemas graves, como crescimento exagerado das algas na costa onde eles trabalham. Do mesmo modo, os moradores de Sechura também reclamam de outros efeitos da exploração e transporte do minério, como a alta circulação de caminhões e veículos pesados, que levantam poeira e causam poluição sonora. Assim como em outras explorações minerais, as violações em Sechura não se mostram como exceção, mas sim a regra do negócio.

Leia aqui o relatório

Por Mario Campagnani