38ª edição da Medalha Chico Mendes de Resistência homenageia defensores de direitos humanos no Rio

Sob o lema Pela vida, pela paz, tortura nunca mais, a premiação reafirma a importância de enfrentar as violações que persistem no presente.

Na última segunda-feira (30), o auditório da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), no centro do Rio de Janeiro, sediou a 38ª edição da Medalha Chico Mendes de Resistência. Organizado pelo Grupo Tortura Nunca Mais do Rio de Janeiro (GTNM/RJ), o evento reuniu defensores de direitos humanos para celebrar trajetórias marcadas pela luta por justiça e pelo enfrentamento à violência de Estado.

Criada em 1989, a medalha surgiu originalmente como um contraponto às homenagens oficiais prestadas a agentes da repressão da ditadura militar brasileira. Hoje, o prêmio reconhece coletivos e indivíduos que se destacam na preservação da memória e na defesa dos direitos fundamentais no Brasil e na América Latina. Sob o lema Pela vida, pela paz, tortura nunca mais, a premiação reafirma a importância de enfrentar as violações que persistem no presente.

Para os organizadores, a medalha funciona como um ato político que conecta o passado ao presente, reforçando a urgência de combater as estruturas de não responsabilização no país. “É justamente mostrar que o passado não tá lá, ele tá aqui também. Os companheiros que morreram durante o período da ditadura, durante o período do Estado Novo, né, esses companheiros também estão aqui, né, nas dificuldades que a gente passa, no fascismo que cada vez aumenta mais. Então, eu acho que atos como esse, como a medalha Chico Mendes e outros atos que a gente passa são atos primeiramente didáticos, antifascistas, como disse a companheira irmã desaparecer de político né? A luta nossa hoje, mais do que nunca é a luta contra o fascismo”, comentou Cecilia Coimbra, integrante do Grupo Tortura Nunca Mais-RJ e uma das fundadoras da Justiça Global.

A escolha dos homenageados foi realizada de forma coletiva, envolvendo entidades como a Justiça Global, além de sindicatos e movimentos sociais. A  diretora-executiva da Justiça Global, Glaucia Marinho, entregou a medalha para os integrantes da Associação da Comunidade dos Remanescentes de Quilombo da Ilha da Marambaia, homenageados por sua resistência secular.

“A Medalha Chico Mendes não é apenas um tributo ao passado, mas um ato político necessário para denunciar como as estruturas de violência da ditadura permanecem até hoje, são faces da mesma moeda: uma política de Estado que continua a negar direitos e a atacar territórios”, afirmou Glaucia Marinho.

A comunidade enfrenta, há décadas, conflitos relacionados à presença de uma base da Marinha do Brasil em seu território, o que impacta diretamente seu direito à terra e à reprodução de seus modos de vida. O caso atingiu dimensão internacional ao ser admitido, em 2022, pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos em 2022, tendo a Justiça Global como uma das peticionárias.

“Nossa luta hoje é para que os nossos jovens tenham direito de estudar, igual aos do continente, e que as mulheres da comunidade tenham direito à saúde e à educação, e para que tenhamos transporte público digno”, afirmou o presidente da Arquimar, Fábio Alves Marçal, ao comentar sobre a privações no território devido à presença da Marinha. =

O coletivo argentino Madres de Plaza de Mayo e outras seis pessoas também foram homenageadas, como o artista João Bosco. Alguns em memória, como o artista Aldir Blanc (1946-2020) e a militante Iara Iavelberg (1944-1971).

Entre as dez trajetórias reconhecidas este ano, destacam-se a resistência territorial e a luta histórica por memória e verdade. Confira a lista de miliantes homenageadas/es:

  • Aldir Blanc (in memoriam) – Compositor e cronista fundamental da cultura brasileira, destacou-se por obras que retratam o cotidiano popular e as injustiças sociais, tornando-se símbolo de resistência cultural;
  • Astrojildo Pereira (in memoriam) – Intelectual e militante político, foi um dos fundadores do Partido Comunista Brasileiro e referência na organização da classe trabalhadora e na luta por justiça social;
  • Eufrásia Maria Souza das Virgens – É defensora pública do Estado do Rio de Janeiro e conselheira do Centro de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente do Rio de Janeiro (CEDECA-RJ);
  • Francisco Manoel Chaves (in memoriam) – Militante engajado na luta por direitos e justiça, com trajetória marcada pela resistência a violações e pelo compromisso com causas populares;
  • Iara Iavelberg (in memoriam) – Psicóloga pela Universidade de São Paulo e militante contra a ditadura militar, tornou-se símbolo da resistência política e da luta por democracia no Brasil;
  • João Bosco – Cantor e compositor cuja obra dialoga com temas sociais e políticos, contribuindo para a memória e a resistência por meio da música;
  • Madres de Plaza de Mayo Línea Fundadora – Organização histórica da Argentina que luta por memória, verdade e justiça pelos desaparecidos da ditadura, referência internacional na defesa dos direitos humanos;
  • Quilombo da Marambaia – Comunidade tradicional de quilombolas do Rio de Janeiro que resiste há décadas pela garantia de seu território, simbolizando a luta dos povos quilombolas por direitos e reconhecimento;
  • Solange de Oliveira Antonio – Liderança do Movimento Mães em Luto da Zona Leste (SP) e da Rede Nacional de Mães e Familiares, atua na denúncia da violência de Estado e no apoio a familiares de vítimas;
  • Tauã Brito da Cruz – Moradora do Complexo da Penha, Zona Norte do Rio, vem denunciando a morte de seu filho, Wellington Brito, de 20 anos, durante a Operação Contenção, em outubro de 2025.

Fundado em 1985, o Grupo Tortura Nunca Mais/RJ atua no combate à tortura e na defesa da memória política brasileira, reunindo ex-presos políticos e familiares de mortos e desaparecidos da ditadura.

É o caso de Victória Grabois, cuja trajetória é marcada pela resistência frente às violências do Estado. Filha de Maurício Grabois, liderança da Guerrilha do Araguaia, e da advogada comunista Alzira da Costa Reis. Além do pai, ela perdeu o irmão, André Grabois, e o marido, Gilberto Olímpio, para a ditadura empresarial-militar brasileira.

“O governo brasileiro não cumpre as sentenças, as várias sentenças que as várias entidades de direitos humanos têm conseguido através do Sistema Interamericano de Direitos Humanos. Então, a importância de preservar a memória daqueles que se foram e que a violência não mais aconteça, que não mais se repita”, disse Grabois.

Criada em 1989, a medalha carrega o legado de Chico Mendes e, a cada edição, ecoa um chamado urgente: lembrar para não repetir.

“Pela vida, pela paz, tortura nunca mais.”.

Entidades promotoras:
Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior – ANDES
Associação de Docentes da Universidade do Estado do Rio Janeiro – ASDUERJ
Associação dos Docentes da Universidade Federal Fluminense – ADUFF
Associação dos Docentes da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro – Adunirio
Associação Brasileira de Imprensa – ABI
Partido Comunista Brasileiro – PCB
Associação José Martí
Instituto Helena Greco de Direitos Humanos e Cidadania – BH/MG
Movimento de Justiça e Direitos Humanos – MJDH-RS
Sindicato dos Psicólogos do Estado do Rio de Janeiro – SINDPSI-RJ
Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos – CEBRASPO
Centro de Defesa dos Direitos Humanos Petrópolis – CDDH
Comitê Chico Mendes
Justiça Global
Rede de Familiares e Comunidades contra a Violência
Conselho Regional de Psicologia do Rio de Janeiro – CRP-RJ

Pela vida, pela paz, tortura nunca mais!

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