Quilombolas de Alcântara conquistam titulação parcial após decisão internacional contra o Brasil

Após condenação da Corte Interamericana de Direitos Humanos, governo brasileirou reconheceu direitos de comunidades quilombolas no Maranhão; decisão marca avanço histórico, mas titulação integral do território ainda está pendente.

Após mais de quatro décadas de violações de direitos humanos, comunidades quilombolas de Alcântara, no litoral do Maranhão, conquistaram a titulação coletiva de parte de seu território tradicional. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva entregou, na última terça-feira (24), o título da porção norte do território. 

A medida ocorre um ano após a condenação do Estado brasileiro pela Corte Interamericana de Direitos Humanos, que reconheceu a responsabilidade do país pelas violações decorrentes da instalação do Centro de Lançamento de Foguetes da Força Aérea Brasileira.

A área titulada soma 45,9 mil hectares e corresponde a mais da metade do território. Ao todo, o Território Étnico de Alcântara é composto por 152 comunidades que permaneceram em suas terras. A sentença internacional, no entanto, determina a titulação coletiva de 78.105 hectares, conforme o Relatório Técnico de Identificação e Delimitação de 2008. Ainda não há definição sobre a conclusão do processo, especialmente em relação à área sul.

A entrega do título ocorreu durante a 3ª Conferência Nacional de Desenvolvimento Rural Sustentável e Solidário, em Brasília. A presidente da Associação do Território Quilombola de Alcântara (Atequila), Valdirene Ferreira Mendonça, recebeu o documento, acompanhada por lideranças locais, como Neta Serejo, do Movimento dos Atingidos pela Base Espacial de Alcântara (Mabe).

“Esse título representa muito para nós, porque no nosso enfrentamento, principalmente, contra a expansão do Centro de Lançamento de Alcântara, essa titulação nos dá segurança jurídica, o que nos permite pensar e planejar o nosso futuro com mais garantia. Era algo que a gente vinha buscando há muito tempo e, graças a Deus, aconteceu. A gente vai continuar lutando para que o restante do território seja titulado, os 33 mil hectares que faltam ainda, do que a gente chama área sul e as agrovilas, que algumas têm títulos individuais. E a gente tem grandes desafios pela frente, que é gerenciar, que é fazer a governância desse território, que é grande e diverso”, comenta Neta Serejo. 

Para a Justiça Global, uma das organizações que atua como representante das comunidades atingidas, o momento representa um avanço importante, ainda que incompleto. “Esta titulação parcial representa uma conquista histórica, fruto de décadas de luta, resistência e organização das comunidades quilombolas de Alcântara na defesa de seu território e de seus modos de vida. É fundamental que o poder público assegure a titulação da totalidade da área, incluindo a parte sul, para cumprir integralmente a sentença e garantir justiça territorial plena”, afirma Daniela Fichino, diretora-adjunta da Justiça Global.

Na mesma linha, Melisanda Trentin, coordenadora do programa de Justiça Socioambiental e Climática da organização, destaca que a medida é resultado direto da pressão internacional. “A titulação parcial é fruto da luta histórica das comunidades e da condenação do Estado brasileiro, que por mais de quatro décadas violou sistematicamente seus direitos. Embora represente um avanço, está longe de ser suficiente. O Estado ainda tem a obrigação de titular integralmente o território e cumprir todas as medidas de reparação, sem novos atrasos.”

A titulação coletiva é um instrumento central, previsto pela Constituição Federal, para garantir a segurança jurídica das comunidades, proteger seus modos de vida e assegurar o direito constitucional à terra. O modelo coletivo impede a venda e a fragmentação do território, funcionando como proteção contra grilagem, conflitos fundiários e outras formas de violação.

O Ministério dos Direitos Humanos e Cidadania lançou em suas redes sociais um vídeo divulgando a sentença, cumprindo a mais um ponto resolutivo. E a DPU lançou documentário “Alcântara: relatos da resistência quilombola”. Assista aqui:

Relembre o caso

O conflito em Alcântara remonta às décadas de 1970 e 1980, quando a implantação do centro de lançamento resultou na remoção forçada de 312 famílias de 32 comunidades. Desde então, as populações quilombolas enfrentam restrições à circulação, ao uso do território e às atividades tradicionais, como pesca e extrativismo.

Em 2001, o caso foi denunciado à Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH). Vinte anos depois, o caso subiu para a Corte Interamericana que, em 2024, condenou o Brasil por uma ampla gama de violações.

O processo internacional teve envolvimento de representantes e movimentos sociais, além de sindicatos, organizações de direitos humanos e instituições de justiça:  federal permanente e essencial à justiça:

  • Movimento dos Atingidos para Base de Alcântara (MABE);
  • Associação do Território Quilombola de Alcântara (Atequila);
  • Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Alcântara (STTR);
  • Justiça Global;
  • Sociedade Maranhense de Direitos Humanos (SMDH);
  • Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado do Maranhão (FETAEMA);
  • Movimento das Mulheres de Alcântara (Momtra); e a
  • Defensoria Pública da União (DPU).

Após mais de duas décadas de tramitação, o processo chegou à Corte Interamericana, que, em 2024, condenou o Brasil por uma ampla gama de violações.

A decisão reconheceu, entre outros pontos, a violação do direito à propriedade coletiva, à consulta prévia, livre e informada e ao projeto de vida das comunidades, além de impactos sobre direitos como alimentação, moradia, cultura e educação. A Corte também apontou discriminação racial e socioeconômica no tratamento dado às comunidades quilombolas.

Entre as determinações, o tribunal internacional estabeleceu a titulação integral do território, a desintrusão da área, a criação de uma mesa permanente de diálogo, a realização de um ato público de reconhecimento de responsabilidade e o pagamento de indenizações.

Apesar das sucessivas oportunidades de solução ao longo do processo, o Estado brasileiro não havia garantido a titulação do território até a decisão internacional. A medida anunciada agora representa o primeiro passo concreto de cumprimento da sentença — ainda que parcial.

As comunidades quilombolas de Alcântara seguem mobilizadas para garantir que o Estado cumpra integralmente suas obrigações e assegure justiça plena após décadas de violações.

 

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