|  Por camila

20 de Novembro: reafirmar a luta é celebrar a história

 

Racista, brancocentrico e escravocrata. A estrutura do Brasil construída nos tempos remotos da colonização portuguesa se perpetua até hoje no nosso cotidiano. Não por acaso o país acordou, nesse 20 de novembro, com a notícia do espancamento até a morte do Sr. João Alberto Silveira Freitas, um homem negro, dentro do supermercado Carrefour, em Porto Alegre. No Amapá, estado com mais de 70% da população formada por pretos e pardos, já faz 18 dias que estão sem luz! Poderíamos discorrer dias sobre todas as violências e massacres que a população negra brasileira é submetida propositalmente, um evidente projeto de eliminação dos corpos negros. Contudo, também é tempo de reflexão e celebração da luta do movimento negro e de setores comprometidos com a luta antirracista.

Hoje, dia de Zumbi dos Palmares, a Justiça Global convidou Regina Lúcia Santos, do Movimento Negro Unificado e da Amparar, Rute Fiúza, das Mães de Maio do Nordeste, Debora Silva, do Movimento Mães de Maio, Vilma Reis, do Mahin Organização de Mulheres Negras, Valdecir Nascimento, do Instituto Odara, e Cristiane Faustino, do Instituto Terra Mar, mulheres que estão na linha de frente da luta, para refletir sobre os desafios e conquistas da população negra. Porque, como diria Candeia, “foi através do Quilombo, e não do movimento abolicionista, que se desenvolveu a luta dos negros contra a escravatura”.

A partir da reflexão dessas mulheres, a Justiça Global reforça o compromisso ético e político com a população negra, a luta antirracista e por reparações integrais, não apenas no dia 20 de Novembro, mas em todas os dias. Sabemos que para construir um processo de vitórias como as conquistadas pelo Movimento Negro no país, é necessário uma luta contínua e coletiva, com dedicação e afinco. Por isso, celebramos o Dia de Zumbi e trazemos neste mosaico, um pouco do que queremos: justiça social, igualdade racial e a eliminação de todas as opressões.

Regina Lúcia Santos

WhatsApp Image 2020-11-18 at 20.57.25“Um dos maiores ganhos da luta antirracista é a derrocada do mito da democracia racial, porque não tem como enfrentar um problema sem conhecê-lo. Então, o país admitir que é extremamente racista é o primeiro passo para enfrentamento do racismo estrutural, do racismo institucional, nesse país.  Acho que os desafios que se apresentam ainda são muito semelhantes a todos os desafios postos no programa de ação do MNU: o enfrentamento à violência policial, à superexploração da mulher negra, à discriminação no mercado de trabalho nos meios de comunicação… Mas nós estamos caminhando e colocando todas essas lutas! Eu acredito que nós estamos no momento ímpar da luta negra, no momento de reconhecimento, onde os meios de comunicação têm que colocar a nossa pauta; em que os meios de comunicação têm que nos tirar da invisibilidade que tentaram nos colocar; no momento de quebrar estereótipos e paradigmas que haviam sido colocados para a população negra. Eu acredito muito muito que a juventude negra hoje tem um papel fundamental na luta que nós estamos fazendo contra a extrema-direita, contra a retirada de direitos da população negra, da população pobre e periférica desse país.  Então eu acredito que a juventude compre um papel muito forte na resistência e seguirá levando a nossa luta por uma sociedade mais justa menos desigual!” 
Rute Fiúza

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“Sou  coordenadora do Movimento das Mães de Maio do Nordeste e também integrante da Coalizão Negra por direitos. E eu expresso aqui as nossas conquistas: a conquista do movimento negro nesses últimos tempos e a nossa maior conquista agora, nessa última eleição, foi o número de mulheres, de mulheres negras, de pessoas quilombolas que alcançaram um pleito, seja como vereadoras e vereadores e até mesmo prefeito. Nós tivemos um prefeito eleito, eu acredito que foi em Goiânia, Goiás, algum interior de Goiás, e essa foi uma das lutas que nós do movimento temos integrados de colocar os nossos corpos nestes espaços políticos, nos espaços públicos, já que há um costume de nos verem como pessoas que não agregam a determinados espaços, determinados grupos. E um dos maiores ganhos nosso nessa nessa última eleição, foi isso, é colocar mulheres negras, homens e pessoas Trans dentro desses espaços. Por uma luta antirracista, nós estamos falando já há muito tempo dessa luta antirracista no Brasil, e que hoje não é somente no Brasil, mas estamos vendo constantemente ataques racistas em toda a Europa, em toda América Latina, e o assassinato de George Floyd deixou isso bem claro para todos nós, que existe essa opressão nos nossos corpos e nós não queremos mais esse tipo de opressão. Nós lutamos constantemente para que isso não aconteça. Esse é o nosso maior desafio. Devemos continuar essa luta porque nós não queremos mais voltar para a senzala, lá não é o nosso lugar e nunca deveria ter sido. Querendo ocupar e já estamos ocupando espaços, seja na Academia, na Política, em todas as áreas que nos é dado esse direito.”

 

Débora Maria Silva

WhatsApp Image 2020-11-20 at 09.57.51“Eu sou Débora Silva, mãe de Edson Rogério Silva dos Santos, vítima fatal, assassinado pelo Estado. Como fundadora e coordenadora do Movimento Mães de Maio ao longo desses 14 anos, a gente como mãe, fizemos um levante  e vimos que o Brasil é produtor de Mães de Maio, mas também avançamos muito, e estamos satisfeitas em ver essas mães do nosso país lutando, avançando em políticas públicas. E também a juventude ocupando os seus espaços nas Universidades e no lugar de poder. Mas temos que avançar mais, com humildade  e combater o ego que nos divide a todo momento, não podemos aceitar esse retrocesso da divisão, mas sim avançar com sabedoria para a gente conseguir conquistar  a tal liberdade que é tão difícil de alcançar com justiça social. O movimento Mãe de Maio foi um levante para as mães de vítimas do genocidio do terrorismo do Estado, e ponto. Porque a ideologia do movimento é: nenhum passo atrás! Para se parir um novo Brasil e uma nova sociedade, sem eco e sem divisão. Só assim construiremos  uma nova sociedade e pariremos um novo Brasil, sem esse racismo estrutural que nos divide, que nos oprime e que nos mata e mata nossos filhos.”

 

 

Vilma Reis 

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“Saudações a todo nosso povo nas lutas da Justiça Global, em todas suas ações, as bandeiras, o ato de chegar perto. Nós chegamos ao mês de Novembro, no dia 18, completamos cinco anos da Marcha de Mulheres Negras,. Além disso, esse é um ano emblemático. O Novembro da Consciência Negra de 2020, é um Novembro que também marca toda nossa resistência nos últimos 14 anos, desde 2006, com a luta das Mães de Maio. É o Novembro em que nós celebramos neste ano de 2020, exatamente, o levante do povo negro, das mulheres negras, das lideranças que se colocaram nesse país para mudar a cara da representação política no poder, no parlamento. É muito lindo o que nós estamos acompanhando, o que nós estamos assistindo. Por isso a nossa mensagem a todos os lutadores, à todas as lutadoras que estão enfrentando a violência no campo e nas cidades, a quem enfrenta a violência nos territórios quilombolas, nos territórios indígenas, nos territórios dos terreiros de Candomblé nos territórios da pesca artesanal, da agricultura familiar, para quem está enfrentando a guerra urbana contra o nosso povo. Esse é um Novembro de levante, um levante de luta, é um Novembro de batalha e é com essas nossas bandeiras de luta da Marcha de Mulheres Negras com as nossas ancestralidades nos sustentando em cima, e a gente dizendo: “Marielle, nós continuamos de pé e lutando porque é o que fala, e nós estarmos aqui afirmando que somos sementes em tantas batalhas em curso.  Viva a nós, viva às águas, viva Zumbi, viva Dandara, viva às lutas das que estão se colocando e fazendo enfrentamento nesse país, onde a colonização continua em carne viva. Onde a colonização ceifa a viva da juventude negra e rouba o sossego das mulheres negras, das mulheres empobrecidas nas periferias no Brasil. É muito importante seguirmos afirmando a bandeira dos Direitos Humanos. Parabéns à Justiça Global e a toda essa nossa rede de lutas.”

 

Valdecir Nascimento

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“Sou coordenadora executiva do Odara, estudo da Mulher Negra, da articulação de mulheres negras brasileiras. Uma articulação que hoje tem organização nas cinco regiões do país. Ou seja, do Oiapoque ao Chuí, nós mulheres negras estamos organizadas contra o racismo, a violência, e pelo bem viver. Também sou coordenadora executiva do Fórum de Promoção de Igualdade Racial, que é uma articulação de organizações antirracistas nesse país. É importante destacar que completamos cinco anos da Marcha das Mulheres Negras, cinco anos que nos desafiamos, cinco anos que ousamos dizer para essa nação que bastava, dizer para essa nação que nós não suportamos mais continuar seguindo com toda violência, com tanto absurdo, e com tanta ausência de direitos. Qual é a nossa projeção: oitenta e oito mil quinhentos e cinquenta e cinco mulheres negras se candidataram para as últimas eleições. O resultado foi impressionante, mesmo considerando que as elites brancas brasileira, e a classe média branca brasileira continua se rebelando e reagindo.”

 

 

Podcast apresenta entrevista com Miltão, um dos fundadores do Movimento Negro Unificado

“O negro no Brasil sempre esteve à frente de várias ações, enfrentando o racismo. Esse país nos deve muito historicamente. Estamos vivendo momentos difíceis, mas quero dizer para negras e negros, trabalhadores, população indígena e o povo da África no mundo: nós estaremos sempre juntos construindo um processo vitorioso, com certeza!”

Neste oitavo episódio do podcast Vozes e Reivindicações, a assessora da Justiça Global, Camila Fiúza, conversa com Miltão sobre o MNU e um pouco da história do defensor.

A luta do movimento negro no país, resultou em vitórias como o direito à demarcação de terras dos quilombos, o ensino da história da África nas escolas e políticas de ações afirmativas em vestibulares e concursos, entre outras.

Ouça a entrevista em todas as plataformas de áudio.

📷 Milton Barbosa no ato fundante do MNU. (Foto: Jesus Carlos via Memorial da Democracia)

O dia da Consciência Negra foi restabelecida em 20 de Novembro pelo projeto de lei número 10.639, no dia 9 de janeiro de 2003, em homenagem ao 20 de novembro de 1695, dia da morte de Zumbi dos Palmares, líder da resistência negra e da luta por liberdade dos nossos ancestrais escravizados desde a colonização do país. A data marca o dia de conscientização na luta antirracista no Brasil.

Brevíssimas notas sobre desafios e potenciais do antirracismo

 

Cris Faustino

O enfrentamento ao racismo é um entendimento e uma luta cotidiana, implica em avançar em perspectivas intelectuais, ações práticas da vida, e formação de novos sensos comuns. Antirracismo não é retórica, uma síntese gritada de uma palavra de ordem, ou mera constatação de dados. Não se enfrenta o racismo sem pressionar os sistemas de privilégios, e sem que haja, no mínimo, uma maior partilha, desde já, do poder e da riqueza socialmente produzidos, em todos os aspectos da vida. E isso não se recebe, se arranca!

Para os sujeitos de transformação social, a pressão e luta antirracistas expõem contradições e incoerências ao propor entendimentos, metodologias concretas e efetivas. Há, pois, que romper com o “conforto” de teorias e práticas revolucionários que não se colocam frente a si próprias quando o assunto é racismo, não assumem o quanto colaboram em nos roubar de nós mesmas, capturam nossos acúmulos para se promover, ou por outra, reduzem, de forma equivocada e perversa, as pautas das desigualdades estruturais ao nível das identidades, inclusive desqualificando-as ou reduzindo-as a interesses individuais de grupos específicos. De forma que o racismo não está só nos capitalistas, que inclusive têm aprendido a se promover pelas pautas das diversidades, às vezes até mais do que os anticapitalistas. Agora, quem quiser que espere o capitalismo terminar para deixar de ser racista, porém um anticapitalismo que não nos considera, terá que nos enfrentar também.

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Ele, o racismo, está no meio de nós e não se o enfrenta sem firmeza política e disposição para reposicionar leituras e teorias sobre a realidade, as pautas e as formas metodológicas de nossas tarefas na luta social. Portanto não foi, nem é sem conflitos que temos conquistados visibilidade, direito à fala e à narrativa, altivez e ousadia para reivindicar-se em pé de igualdade num sistema de privilégio que não é genérico e nem um sujeito em si mesmo! Os privilégios são reais e vivos, movimentados pelos sujeitos privilegiados sim, dentro e fora das lutas, na esquerda e na direita. Sujeitos que não recuam por si só, a partir de um insight próprio. As conquistas antirracistas são sempre marcadas por conflitos, desgastes e muitos desentendimentos, e nós as mulheres negras sabemos disso em dimensão tão profunda, que tais enfrentamentos são a nossa própria vida, todo santo dia, faça sol ou faça chuva.

Mas, há que se falar das perspectivas geradas nessa movimentação em construção coletiva, aquilombadas e autodeterminadas, interseccionando diferentes questões como a luta contra o patriarcado, o machismo e misoginia, as opressões às diversidades sexuais e de gênero, e os significados de sermos a imensa maioria entre as populações empobrecidas deste país. Por fim, importa dizer que a vida é feita de ontem, de agora e no pra frente, e que a consciência e a ação negras e indígenas sacodem as estruturas, reposicionam forças e convidam todo mundo a ser melhor e melhorar o mundo!


Imagem destaque: Manifestação do dia da Consciência Negra (20/11) – Praça Ramos – 1979/ Foto: Ennio Braus

Por camila