|  Camila Fiúza

Pantanal em chamas: crime ambiental ameaça vidas indígenas

“Mais de 80% das nossas terras já foram devastadas pelo fogo, as fossas foram queimadas, não há condição nem de beber água potável! Há povos que precisam de socorro no Cerrado, no Pantanal, no Xingu, no Araguaia…” É com a voz embargada que Eliane Xunakalo, do povo Bakairi, denuncia a situação de indígenas em áreas afetadas pelo fogo no Mato Grosso, no centro-oeste brasileiro. 

 

Água que o povo Guatò está bebendo. Créditos: FEPOIMT

Água que o povo Guatò está bebendo. Créditos: FEPOIMT

 

 

O mês de setembro ainda nem terminou e o Pantanal já tem o maior número mensal de incêndios registrado na história do país, ultrapassando o recorde de agosto de 2005 que era de 5.993 focos e hoje, faltando quase uma semana pra terminar o mês, já tem 6.048 registros. Em comparação ao mesmo período do ano passado, a alta é de 109%. Os dados são do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, órgão do governo brasileiro.  Segundo levantamento da Agência Pública, agência de jornalismo investigativo, até a metade de setembro 174 focos de incêndio haviam atingido terras indígenas no Pantanal. 

 

“Ao atacar um bioma, uma floresta, ao atacar o Pantanal estão atacando à nós indígenas que somos ligados e vivemos da natureza”, exclama Eliane Xunakal, que é Assessora da Federação dos Povos e Organizações Indígenas do Mato Grosso (FEPOIMT), estado que concentra 43 povos indígenas. 

 

 

Terra indígena Baía dos Guatò no Pantanal (Poconé, MT). Crédito: Alessandra Guatò

Terra indígena Baía dos Guatò no Pantanal (Poconé, MT). Crédito: Alessandra Guatò

 

O fogo se alastra depressa e o governo brasileiro não avança em medidas para evitar as queimadas. A fuligem das queimadas tem causado problemas respiratórios na população indígena que vive próxima às zonas de queimadas, segundo Eliane: “A Covid ataca justamente o sistema respiratório e quem está com consequências da doença piora! O incêndio potencializa o nosso sofrimento. Para completar, o atendimento à saúde também não é o adequado.”

 

 

“É necessário olhar com atenção para os povos do Pantanal, não só para os povos indígenas, mas todos que lá vivem, porque o bioma abriga pessoas, animais e uma flora riquíssima. Os animais são muito importantes, precisamos resgatá-los, devemos, mas também devemos socorrer as pessoas que estão precisando de ajuda e de dignidade.”, finaliza Eliane. 

 

Ouça o depoimento de Eliane Baikiri na íntegra clicando aqui.

 

Presidente do Brasil acusou indígenas de causar incêndios na Amazônia  

 

Durante a abertura da 75ª Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas, que ocorreu na última segunda-feira (21), o presidente Jair Bolsonaro atribuiu as queimadas que atingem a Amazônia aos indígenas: “os incêndios acontecem praticamente, nos mesmos lugares (…) onde o caboclo e o índio queimam seus roçados em busca de sua sobrevivência (sic).” 

 

No entanto, dados de satélite mostram que, nos locais que mais sofreram com as queimadas, os focos de incêndio surgiram e se multiplicaram primeiro em propriedades privadas para depois tomar as Terras Indígenas. 

 

A população indígena do Mato Grosso que também sofre com incêndios foi afetada pelo pronunciamento de Bolsonaro. “Ele demonstrou total ignorância e que desconhece a constituição de 1988. (…) Porque ele não acompanhou a trajetória do Brasil e não assume a culpa dele. Todo mundo é culpado, menos ele!”, bradou Francisca Navantino, do povo Paresí, doutora em antropologia Social (UFRJ e atual Conselheira no Conselho Estadual de Educação, do Conselho Indígena. 

 

“O desaparecimento de animais, de espécies nativas e o motivo pelo nosso bioma está prejudicado é culpa dos governos incompetentes que violaram a constituição. E esse governo é pior ainda! Perdemos uma área de vegetação muito importante. O nosso povo está sofrendo!”, finaliza Francisca, que também faz parte da Takinã, uma organização de mulheres indígenas do Mato Grosso. Para conhecer, clique aqui e ouça o relato da professora. 

 

Podcast traz relato de indígenas do Pantanal

 

Para falar sobre os impactos dos incêndios nas comunidades e povos indígenas, ouvimos duas indígenas do Pantanal, no Mato Grosso, Eliane Xunakalo, e Chikinha Nezokemaero Paresi participam do quarto episódio do programa Vozes e Reivindicações.

O podcast da Justiça Global é um realizado quinzenalmente e apresenta entrevistas abordando os direitos humanos e a democracia no Brasil.

Ouça o quarto episódio Pantanal em Chamas e o Genocídio Indígena no Spotify, SoundCloud e demais plataformas. #vidasindígenasimportam

 

Terra indígena Baía dos Guatò no Pantanal (Poconé, MT). Crédito: Alessandra Guatò
Camila Fiúza