|  Por daniela

Racismo ambiental no desastre em Mariana

Os desastres socioambientais não afetam as populações de maneira uniforme. Ao contrário, os riscos e impactos recaem de maneira mais dura e evidente sobre grupos mais vulneráveis. No caso do rompimento da barragem de rejeitos da mineradora Samarco não foi diferente. Estudo preliminar conduzido pelo Professor Luiz Jardim Wanderley, da Uerj, explora e detalha a distribuição racial dos moradores de Bento Rodrigues, Paracatu de Baixo, e outras localidades afetadas, de acordo com os dados do Censo de 2010. [Ver o estudo completo]

Bento Rodrigues, localizado no município de Mariana, é parte do distrito de Santa  Rita Durão. Bento é classificado pelo IBGE como um “Aglomerado Rural Isolado – Povoado” deste distrito. Tomando por base a população total de Bento Rodrigues (de 492 moradores, segundo o Censo de 2010), e os dados para a população rural de Santa Rita Durão (de 500 moradores, segundo os dados do Censo), o estudo conclui que a população rural do distrito de Santa Rita equivale quase que totalmente à população de Bento Rodrigues, único povoado rural desta área. Deste modo, é possível concluir que as características étnico/raciais atribuídas pelo Censo à população rural de Santa Rita Durão equivalem às características étnico/raciais da população de Bento Rodrigues. E o estudo aponta que 84,3% da população de Bento é composta por pretos e pardos, classificação utilizada pelo IBGE.

racismo ambiental no desastre em mariana

O estudo utiliza cálculo semelhante para estimar a proporção da população negra em outras localidades atingidas, como Paracatu de Baixo, no município de Mariana, e Gesteira, no município de Barra Longa.

Wanderley, 2015.

Wanderley, 2015.

As conclusões do estudo apontam que os impactos foram mais severos nas áreas de maior população negra. Esta população habitava áreas mais inseguras e mais expostas aos riscos da atividade mineradora, e sofreu diretamente o impacto do rompimento da barragem de rejeitos.

“Constata-se de maneira preliminar, com base nos dados apresentados acima, que há uma tendência de intensificação do predomínio de população negra quanto maior a exposição às situações de riscos relacionadas à proximidade com a exploração mineral de ferro e das barragens de rejeito da Samarco. Bento Rodrigues com uma população 84,3% negra se encontrava a pouco mais de 6 km da barragem de rejeito rompida; Paracatu de Baixo com 80% se situava a pouco mais de 40 km a jusante da barragem (seguindo o curso do rio Gualaxo do Norte); o povoado de Gesteira afastado aproximadamente 62 km da barragem apresenta 70,4% da população negra, cidade de Barra Longa com 60,3% da população negra dista cerca de 76 km da barragem aproximadamente. Foram, sobretudo, estas comunidades negras as que mais sofreram com as perdas humanas e com os impactos materiais, simbólicos e psicológicos”. (Wanderley, 2015)