Minas Gerais – A resistência de um povo contra a mineradora Vale

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Atingidas pela Vale abrem faixa contra empresa em Catas Altas (MG), com a Serra do Caraça ao Fundo

A Justiça Global é parte da Articulação Internacional das Atingidas e Atingidos pela Vale, que realizou uma caravana nos dias 10, 11 e 12 por Minas Gerais para ver de perto as violações de direitos humanos causadas pela mineradora na região chamada de Quadrilátero Ferrífero. Aqui abaixo, você acompanha um pequeno relato das experiências de cada um dos dias, que representaram momentos diferentes dessa luta. No dia 10, estivemos na Serra do Gandarela, paraíso ainda intocado, que está sob mira da Vale para a colocação de seu projeto Apolo. No dia 11, fomos a dois bairros de Congonhas, Plataforma e Pires, que enfrentam consequências irremediáveis da exploração mineral. Por último, foi a vez de Catas Altas, belíssima cidade que já sente os efeitos das ações da empresa, mas ainda enxerga no horizonte a possibilidade de reverter os danos.

Com esse registro de tantas histórias de mulheres e homens guerreiros, esperamos fortalecer a luta contra esse modelo de desenvolvimento que vê na exploração e destruição de nossos bens naturais uma alternativa viável para o planeta.

Dia 11: Serra do Gandarela, paraíso ameaçado pela Vale

A Caravana Sul do Encontro Internacional dos Atingidos pela Vale esteve na Serra do Gandarela, em Minas Gerais, para ver como a ganância da empresa pode destruir uma das últimas partes preservadas do chamado Quadrilátero Ferrífero. Nessa região historicamente explorada e degradada, o Gandarela representa um dos últimos redutos de vegetação nativa, assim como uma importante aquífero que pode abastecer milhões de pessoas no estado. Tudo, porém, pode acabar se o Projeto Apolo da Vale for colocado em prática. A ideia é criar na região a segunda maior mina de exploração de ferro no país, atrás apenas da de Carajás, no Pará.

Em outubro do ano passado, depois de muita luta, foi criado o Parque Nacional da Serra do Gandarela. Entretanto, o desenho dos limites do parque deixou de fora exatamente as montanhas que dão o nome a ele. A questão é que é nessa serra que se encontra a jazida de ferro. Dessa forma, por pressão política da Vale, o parque perde a região que lhe dá o nome e que também é onde ficam os mananciais da região.

O geólogo Paulo Rodrigues explica que a serra é coberta pela chamada canga, uma formação geológica que surge na superfície quando o subsolo é rico em ferro. “É um material duro, mas altamente poroso. Assim, as águas das chuvas são absorvidas e vão ser depositadas exatamente junto ao ferro. Com a exploração que querem fazer, vão ter que retirar toda essa água, que é a mesma que vai brotar nas nascentes dos rios da região. Temos relatos de nascentes que secaram mesmo estando a quatro quilômetros da área de exploração mineral”.

O geólogo é do Movimento pela Preservação da Serra do Gandarela, que também é parte da Articulação Internacional dos Atingidos pela Vale. Em seu encontro anual, agora em agosto, um dos objetivos da articulação é exatamente pensar estratégias para que o Gandarela e outros patrimônios naturais não tenham o triste fim de outros já explorados por essa empresa.

“A Vale usa todo seu poder político e financeiro para conseguir passar por cima dos interesses da população. Fala-se muito em crise hídrica. A água do parque poderia ser utilizada para resolver problemas de abastecimento em Minas Gerais. Inclusive, falamos sobre isso com a companhia de abastecimento do estado, mas houve pressão política para não pensarem em uma alternativa de uso responsável da água daqui. Tudo porque a Vale tem interesse de explorar a região”, explicou Maria Tereza, a Teca, do movimento pela preservação da serra.

Dia 11: Sobradinho e Pires, quando a mineração causa danos permanentes em nossas vidas

Como uma montanha transformada lentamente em cratera, o bairro de Sobradinho, em Congonhas, é pouco a pouco destruído pela ação da mineração. Próximo a uma mina da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), a localidade foi sendo alterada até hoje representar apenas uma sombra do que foi antes. Das 130 famílias que lá viveram, hoje somente restam 12.

A caravana da Articulação Internacional dos Atingidos pela Vale foi ao local conhecer sua história. A primeira perda do bairro foi logo o nome original. De Sobradinho virou Plataforma, nome relacionado à atividade mineira na empresa vizinha. Os moradores, no início, não percebiam o que estava ocorrer, mas os problemas foram aparecendo. A fonte de água comunitária logo desapareceu por causa da mineração. Para “solucionar” o problema, a empresa passou a fornecer água para as casas.

O avanço da mineração foi se tornando cada vez maior, em área de ação e também nos efeitos sentidos pela população. A antiga estação de trem foi destruída. Depois, o próprio trem de passageiros parou de passar. As atividades de exploração da CSN logo estavam literalmente no quintal das casas, explica Rebeca Santana, de 23 anos, uma das poucas moradoras a resistir.

“Sofremos muito com o barulho das máquinas que colocam o minério nos vagões dos trens, assim como com a poluição do ar. E a situação piorou ainda mais quando a CSN construiu um carregador de vagões novo do lado da casas. Ainda bem que o Ministério Público conseguiu uma liminar impedindo a empresa de usar esse novo carregador enquanto houver moradores aqui, pois seria impossível conviver com essa máquina”, afirmou Rebeca.

Para lidar com os moradores, foi utilizada uma estratégia clássica das mineradoras, criar brigas e divisões entre eles. As negociações foram feitas parte a parte, sendo que as pessoas que tinham mais influência política no bairro foram ganhando mais vantagens em cima das demais. Logo, eles não conseguiram se organizar coletivamente para resistir.

Aos poucos, até Deus abandonou o local. As quatro igrejas do local – uma católica e três evangélicas – foram desativadas. Na escola municipal há apenas quatro alunos. Algumas famílias aceitaram pagamento irrisórios, enquanto outras escolheram ser reassentadas em um novo bairro chamado Plataforma 2.

As 12 famílias continuam em suas casas e afirmam que não saem enquanto não conseguirem um acordo minimamente decente. A esperança de que o bairro volta a ser o que era no passado, infelizmente, foi soterrada pelo peso do minério.

Rebeca espera que a história de seu bairro sirva de exemplo para outros: “É preciso que a população esteja unida para lutar, pois as mineradoras têm muito poder para desmobilizar. Eu vejo o que aconteceu com o meu bairro e penso que, no futuro, muitos outros e a própria cidade de Congonhas pode ter o mesmo fim. Essas empresas não têm interesse algum em ajudar a comunidade. O que vai ficar para Congonhas quando o minério acabar? Vai ficar a natureza destruída, uma terra seca, um grande buraco na cidade. A mineradora vai embora, nossas vidas ficam aqui”.

Mulheres na linha de frente

As mulheres da Articulação Internacional dos Atingidos pela Vale são exemplos de luta pelo direito a moradia digna. No segundo dia por Minas Gerais, a caravana da Articulação também esteve no Bairro do Pires, em Congonhas, onde viu a luta dos moradores contra os danos causados pela Vale e outras empresas: contaminação da água e do ar, além dos riscos causados pela linha do trem e pela rodovia que cortam o bairro.

Lá foi o local de encontro de quatro mulheres guerreiras que tiveram oportunidade de trocar suas histórias e experiências:

Sandra Vita, moradora do Morro da Água Quente, em Catas Altas (MG), que luta não apenas pelos danos que já ocorrem com a mineração, como também agora tenta impedir que a Vale abra uma nova mina, ainda mais próxima de sua comunidade.

Ivana Gomes, presidente da Associação de Moradores do Bairro do Pires, contou sobre as dificuldades que é fazer a luta contra a mineração, como as ações das empresas para dividir os moradores: “Elas espalham boatos e também usam o fato de ter moradores contratados por empresas que prestam serviço para ameaçar. Muitos têm medo de perder o emprego ao protestar”.

Do bairro de Piquiá de Baixo, em Açailândia (MA), Joselma de Oliveira e Francisca Silva também falaram sobre sua história de resistência. Elas buscam o reassentamento de todo o bairro, altamente poluído pelos resíduos produzidos pelas siderúrgicas que trabalham para a Vale, assim como pela Estrada de Ferro Carajás. Ao ouvir a história de Sandra, Joselma lembrou da sua: “Quando as empresas chegaram, a gente achou que ia gerar riqueza, mas só houve destruição. Hoje, nossa luta é para sair de lá. É um processo que ocorre agora porque a gente não lutou no passado contra a instalação, acreditando que era o desenvolvimento chegando. Por isso, é importante a luta para que a Vale não abra a mina perto da casa de vocês”.

Dia 12: A resistência em Catas Altas

Quando uma cidade faz da mineração sua principal atividade econômica, logo se vislumbra no horizonte um momento em que, com o fim da exploração, haverá um colapso da renda de seus habitantes e das receitas municipais. As empresas vão embora com os lucros, e os moradores ficam com os danos ambientais e sociais. É um processo que ocorre em diversos locais, sendo que no Brasil encontramos histórias como a do município de Catas Altas, onde os erros do passado parecem um roteiro pronto do que aguardar no futuro. Fundado como um arraial em 1703, Catas Altas cresceu no chamado ciclo do ouro, ainda no período colonial. Ao fim do Século XIX, com o fim dessa exploração, chegou a crise, pois não havia outra atividade econômica na região. Para resistir, os moradores tiveram que aprender outras atividades, como a agricultura, até que uma suposta nova oportunidade de crescimento surgiu, a exploração de ferro. Assim se iniciou um novo ciclo, que ainda não entrou em colapso, mas que já deixa os efeitos nocivos bem mais evidentes do que os dos séculos do ouro. Todavia, a cidade já conta com moradores cientes dessa questão e que agora lutam para evitar que a história termine com a mesma conclusão.

A beleza da Serra do Caraça, que surge como uma grande muralha a proteger a comunidade, já começa a ser afetada pelos buracos abertos pela empresa, especialmente em Morro da Água Quente, vilarejo que fica ao lado esquerdo da serra. Assim como o Pico do Caué, em Itabira, terra natal de Carlos Drummond de Andrade, que de montanha virou cratera, o Pico São Luís, a cerca de mil metros do vilarejo, começa a ser destruído pela Vale, numa mineração a céu aberto que vem contaminando o ar da comunidade, assim como trazendo graves riscos de poluição e destruição das fontes de água dos moradores.

Dentre os moradores de Morro da Água Quente que estão se mobilizando está Sandra Vita, guerreira que vem denunciando incessantemente os problemas já causados pela Vale, assim como luta para que eles não se agravem ainda mais: “As pessoas já estão adoecendo aqui por causa dessa exploração no Pico. Agora, a situação pode se agravar ainda mais, pois a Vale quer reabrir uma mina desativada, a de Tamanduá, que fica a cerca de 700 metros das nossas casas, ou seja, praticamente dentro delas. Aqui nós tínhamos uma vida tranquila. Agora, temos que conviver com as explosões e a poeira da mina, além do barulho do trem. Se deixarmos, a Vale coloca toda a serra abaixo, e os moradores que tratem de procurar outro lugar para morar”.

Os membros da caravana que passaram por Catas Altas tiveram a oportunidade de conversar com os estudantes da Escola Estadual Alzira Ayres Pereira. Na cidade há um grande investimento da Vale em publicidade, para tentar vender a ideia de que a mineração é benéfica a todos e que se trata de uma “vocação natural” de Minas Gerais. Essa foi a oportunidade dos adolescentes ouvirem relatos de países como Moçambique, Colômbia e Peru sobre as violações cometidas pela Vale e outras empresas. Para a professora de química Agostinha Vieira, é essencial que a juventude comece a ter noção do resultado desse modelo de desenvolvimento ligado à mineração. “A mineração não é uma atividade para o futuro. Aqui em Catas Altas temos minério, água e turismo. Se não pensarmos em alternativas, o minério acaba e leva junto os outros bens da cidade. Para os jovens, é essencial perceber que há outras possibilidades de sustento que não levem à destruição do nosso planeta”, afirmou Agostinha, que tem 40 anos de magistério.

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