Um caso a cada 9 horas: Brasil registrou 134 casos de violência política no 1º turno, diz pesquisa da Justiça Global e da Terra de Direitos

Violência foi superior ao 1º turno de eleições em 2022 e atingiu principalmente mulheres, 52% das vítimas. Número corresponde aos 50 dias de campanha.

Durante os 50 dias das campanhas eleitorais do 1º turno, iniciadas em 16 de agosto e encerrada no último domingo (04), foram registrados 134 casos de violência política no Brasil, o equivalente a um caso de violência política a cada nove horas. 

O número representa um aumento dos casos em relação ao primeiro turno de 2022, quando foram registrados 121 casos. Os dados fazem parte da 4ª edição da pesquisa Violência Política e Eleitoral no Brasil, produzida pelas organizações de direitos humanos Terra de Direitos e Justiça Global. 

No primeiro turno, a violência política foi cinco vezes mais frequente do que no período sem disputa eleitoral. Entre 28 de outubro de 2024 e 15 de agosto de 2026, um total de 22 meses, o Brasil registrou 354 episódios de violência política, uma média de uma ocorrência a cada 44 horas.  

“A violência não pode ser tratada como parte natural da disputa eleitoral. Quando ameaças e ataques são usados para intimidar candidaturas, impedir atividades de campanha e silenciar propostas, o direito à participação política é diretamente afetado. Cabe às instituições garantir que a violência não determine quem pode disputar, ocupar e exercer o poder”, afirma Glaucia Marinho, diretora-executiva da Justiça Global.

A mudança também aparece no perfil dos alvos. Dos 134 episódios registrados no primeiro turno, 102 foram dirigidos a pessoas com candidaturas registradas, o que equivalente a 76,1% do total.  Os outros 32 casos atingiram quem não disputava eleições: foram vítimas 19 vereadores, 3 prefeitos, um vice-prefeito e dois secretários. Também houve quatro casos contra dirigentes partidários e dois contra sedes do PT e a equipe de uma candidata. 

Enquanto, no período pré-eleitoral, a violência política havia se concentrado na disputa municipal, com 63% dos episódios atingindo agentes políticos municipais, como vereadores e prefeitos, no 1 º turno das eleições o cenário mudou. A violência passou a se concentrar entre pessoas que disputavam ou exerciam cargos nas esferas federal e estadual. 

Dos episódios registrados no período, 54 (40,3%) atingiram pessoas que disputavam ou exerciam cargos federais. Outros 48 casos (35,8%) tiveram como alvo pessoas que disputavam ou exerciam cargos estaduais. Já 25 episódios (18,7%) atingiram pessoas que disputavam ou exerciam cargos municipais. 

A ameaça foi o tipo de violência política mais recorrente no período, com 64 casos registrados. Na sequência, aparecem 33 episódios de ofensa e 19 de agressão física. Também foram registrados 11 atentados, cinco casos de criminalização e dois assassinatos. Os dois assassinatos foram de agentes relacionados a esfera municipal, de um vereador e um de secretário municipal.  

O local onde ocorreram os episódios também evidenciam a relação da violência com a disputa ao pleito. Do total de casos, 71 ocorreram na rua, durante atividades de campanha ou em eventos públicos, ou seja, mais da metade do total. 

“Os dados trazem importantes achados para identificar os ambientes em que agentes políticos estão mais vulneráveis e pensar medidas de proteção. Quando eleitas, essas pessoas passam a ser vítimas de violências principalmente nos seus locais de atuação, seja no parlamento ou no executivo”, aponta Gisele Barbieri, coordenadora do Setor de Incidência da Terra de Direitos.

Ela destaca ainda a preocupação com os ambientes virtuais: no período pré-eleitoral, 42,4% das violências aconteceram nesse âmbito contra 31,3% nesse período enquanto durante o 1º turno, 31,3% dos casos foram registrados no ambiente virtual.  

Segundo Barbieri, o alto dado é reflexo da ausência de regulação das redes sociais. “É preciso que as plataformas tenham responsabilidade sobre a circulação desses conteúdos violentos. Nas redes ou nas ruas, a violência está sendo utilizada para intimidar e impedir que determinadas candidaturas e propostas possam se expressar”, avalia. 

Mulheres seguem como principais vítimas  

A violência política contra mulheres, que já representava 50,6% das vítimas no período pré-eleitoral, aumentou durante o 1º turno. Dos 134 episódios registrados neste período, 70 tiveram mulheres cisgênero e trans como vítimas (52,2%). Os homens foram vítimas em 61 casos.  Nos três episódios restantes, os alvos foram sedes do PT (Macapá e Campina Grande) e equipe de campanha de uma candidata. 

O cenário de violência contra as mulheres é ainda mais evidente quando considerados apenas os casos contra candidaturas. Dos 102 episódios dirigidos a pessoas candidatas, 60 tiveram candidatas mulheres como vítimas, o equivalente a 58,8%. 

Embora representem cerca de um terço das candidaturas, as mulheres foram vítimas em mais da metade dos episódios de violência dirigidos a candidaturas. 

Nas edições anteriores da pesquisa, mulheres representavam 41,3% das vítimas no período pré-eleitoral de 2020 a 2022, 38% no período eleitoral de 2022 e 38,4% entre 2022 e 2024. 

Violência contra mulheres é marcada por misoginia, racismo e transfobia 

A diferença entre homens e mulheres também aparece nos tipos de violência registrados. Entre os 32 episódios de violência física (agressões, atentados e assassinatos) as mulheres foram vítimas em 21,9% dos casos. Já entre os 97 episódios de violência simbólica, que incluem ameaças e ofensas, as mulheres foram vítimas em 61,9% (60 casos). 

Os dois assassinatos e dez dos 11 atentados tiveram homens como vítimas. As 12 ocorrências com arma de fogo tiveram vítimas exclusivamente masculinas. Já as sete ameaças de violência sexual tiveram mulheres como vítimas exclusivamente. 

Entre os episódios contra mulheres, 53 dos 70 casos (75,7%) apresentaram marcadores discriminatórios. Foram identificados machismo ou misoginia em 45 casos, racismo em nove e transfobia em cinco. 

A dimensão racial também evidencia desigualdades. Pessoas negras, pretas e pardas, representaram 44,8% (60) de todas as vítimas de violência política no primeiro turno. Entre as mulheres vítimas, 19 das 70 eram mulheres pretas, mais de uma em cada quatro. Mulheres negras foram vítimas em 24,6% dos episódios de violência política, embora representassem 18,2% das candidaturas. Dos 13 episódios em que o racismo apareceu explicitamente como marcador de violência, oito tiveram mulheres pretas como vítimas. 

“Enquanto os homens são atacados por sua atuação política, mulheres, pessoas negras e pessoas trans enfrentam também o racismo, o machismo e a transfobia que estruturam a sociedade brasileira. Quando essas formas de discriminação se cruzam, elas se reforçam e ampliam as barreiras à participação política, tornando ainda mais difícil o acesso e a permanência desses grupos nos espaços de poder”, observa Glaucia Marinho. 

Agentes públicos estão entre os autores identificados 

Em 26 episódios (19,4% do total de 134), o autor identificado era um agente público. Desse conjunto, 14 eram parlamentares ou governantes, sete eram agentes de segurança e cinco eram outros agentes públicos. 

Apesar da identificação dos autores, nenhum dos 134 episódios registrados havia resultado em punição efetiva até o encerramento da coleta de dados. As atuações da Justiça Eleitoral identificadas durante a campanha, em pelo menos oito casos, limitaram-se a medidas de urgência, como remoção de vídeos, suspensão de perfis e concessão de medidas protetivas. Essas medidas podem interromper a violência em curso, mas não representam, por si só, a responsabilização dos autores. 

Sobre a pesquisa

A 4ª edição da pesquisa Violência Política e Eleitoral no Brasil, realizada por Terra de Direitos e Justiça Global, acompanha episódios de violência política no país e busca evidenciar como essas práticas afetam a participação política, a democracia e o exercício de direitos.   

Os dados do primeiro turno integram o levantamento de 2026. Os resultados consolidados, incluindo os episódios registrados durante o segundo turno, serão divulgados em novembro. 

Com dados mapeados desde 2016, a pesquisa Violência Política e Eleitoral no Brasil já mapeou 2.071 episódios de violações contra agentes políticos e lideranças, considerando dados lançados nesta quarta-feira (07).  Para a coleta de dados as organizações realizam o monitoramento e checagem diária da cobertura jornalística nacional e regional, além do cruzamento com registros oficiais e denúncias públicas.

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