Memória: Há onze anos, o defensor de direitos humanos e da natureza Raimundo do Santos Rodrigues era assassinado por sua atuação em defesa da Reserva Biológica do Gurupi, no Maranhão.
No coração do Maranhão, a Reserva Biológica (Rebio) do Gurupi ergue-se como a única Unidade de Conservação de Proteção Integral da Amazônia Maranhense, uma rica barreira de biodiversidade cercada por terras indígenas.
Foi para as margens desse território, na comunidade Brejinho Rio da Onça II, que o camponês Raimundo dos Santos Rodrigues, conhecido como “Seu Dos Santos”, chegou em 2009 com sua esposa Maria e seus seis filhos, acompanhado por cerca de 38 famílias trabalhadoras.
Movidos pela necessidade de terra para plantar e abrigar suas famílias, eles se estabeleceram na região, aguardando que o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) regularizasse sua situação como assentados.
Em defesa da vida e da floresta
Inicialmente, as famílias não sabiam que a área ocupada pertencia à União. No entanto, após servidores do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) iniciarem diálogos na região, Raimundo interessou-se profundamente pela preservação do local. Eleito por sua comunidade, tornou-se conselheiro voluntário da Rebio Gurupi entre 2012 e 2013.
Com uma visão simples e profunda de cidadania, Seu Dos Santos defendia que “nós temos o direito de ter um lugar para viver, mas os animais também têm”. No conselho, ele passou a incentivar os vizinhos a adotarem uma convivência harmoniosa com a floresta, evitando queimadas e a derrubada de mata nativa.
Paralelamente, ao compreender que defender a floresta era garantir uma vida digna para sua família, Raimundo e sua comapnheira, Maria, iniciaram uma corajosa jornada de denúncias contra a extração ilegal de madeira no Vale do Pindaré.
A luta frente aos interesses lucrativos
Esse compromisso com a floresta colidiu frontalmente com interesses econômicos locais. O fazendeiro José Escórcio de Cerqueira, que já acumulara histórico na lista suja do trabalho escravo, havia convidado as famílias camponesas a se acamparem nos limites de sua suposta propriedade com o plano de fazer o Incra pagar uma indenização por terras públicas federais.
Quando a vistoria do órgão frustrou a tentativa de Escórcio de vender terras da União ao próprio Estado, o fazendeiro iniciou uma perseguição para expulsar os trabalhadores rurais. O conflito escalou drasticamente em junho de 2014, quando o filho do latifundiário, José Escórcio de Cerqueira Filho, incendiou as casas da comunidade Brejinho Rio da Onça II.
Diante da violência, Raimundo buscou amparo legal por todos os meios possíveis. Com o auxílio do chefe da reserva e de organizações sociais, ele registrou boletins de ocorrência e encaminhou denúncias formais às polícias civil, militar e federal, ao Ministério Público e à Ouvidoria Agrária Nacional.
Quatro meses antes de sua morte, Raimundo chegou a registrar um boletim de ocorrência na delegacia de Bom Jardim informando que o fazendeiro estava contratando jagunços para assassiná-lo. Nada disso adiantou: o Estado falhou gravemente em investigar as ameaças ou fornecer proteção ao conselheiro e sua família.
O casal de ambientalistas foi vítima de uma emboscada
A negligência culminou em tragédia no dia 25 de agosto de 2015. Ao retornar de Buriticupu em uma estrada de terra dentro da Rebio Gurupi, o casal foi emboscado por dois pistoleiros em uma motocicleta.
Raimundo foi alvejado com sete tiros e, mesmo caído, foi golpeado brutalmente com um facão. Maria recebeu disparos no cotovelo e no abdômen, mas conseguiu fugir pela mata fechada e caminhar cerca de 500 metros para buscar ajuda de conhecidos. Raimundo faleceu no local devido aos ferimentos.
Após sobreviver ao atentado, Maria iniciou uma dolorosa jornada de fuga e invisibilização. Forçada a passar semanas em abrigos clandestinos no Maranhão para escapar dos criminosos soltos, ela e seus dois filhos menores foram integrados em outubro de 2015 ao Programa de Proteção a Vítimas e Testemunhas Ameaçadas (Provita) e transferidos para outro estado em sigilo.
O preço da sobrevivência foi o exílio absoluto: Maria teve que romper o contato pessoal com o restante de sua família, abandonar sua comunidade e suas terras.
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Um longo caminho até a justiça, que teve seu desfecho neste ano
Enquanto Maria vivia no silêncio do exílio, o processo judicial arrastou-se por anos devido a manobras e impunidades. O mandante, José Escórcio, faleceu de causas naturais em 2017 sem nunca ter sido julgado. Um dos pistoleiros foi executado no dia seguinte ao crime como queima de arquivo e o outro jamais foi localizado.
No entanto, a investigação apontou que a contratação e a ocultação das provas haviam sido intermediadas por Francisco da Silva Sousa, conhecido como “Da Silva”, um ex-policial militar. Aproveitando-se de seu conhecimento interno da corporação, Da Silva obstruiu a apuração dos fatos, orientando a ocultação do celular do pistoleiro morto e intimidando testemunhas.
A justiça só começou a ser plenamente restabelecida mais de dez anos depois. Em 28 de abril de 2026, no Tribunal do Júri de Bom Jardim, realizou-se o julgamento histórico. Para depor como testemunha de acusação, Maria precisou usar disfarces complexos (peruca, óculos escuros e máscara hospitalar) e ser protegida por uma barreira policial armada.
Na madrugada do dia 29 de abril de 2026, após mais de 16 horas de sessão, o ex-policial Da Silva foi condenado a 35 anos e quatro meses de reclusão em regime fechado. Embora ainda caibam recursos, a condenação rompeu uma consolidada lógica de impunidade no campo maranhense.
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A vitória judicial de Maria honra a memória de Raimundo dos Santos Rodrigues, mas ocorre em um cenário que continua crítico. O Maranhão segue liderando em conflitos no campo, com 190 ocorrências registradas em 2025, e o Brasil se mantém como um dos países mais letais do mundo para os defensores ambientais.
Como forma de perenizar seu sacrifício voluntário e sua coragem, a Assembleia Legislativa do Maranhão instituiu a Medalha do Mérito Legislativo “Raimundo Santos Rodrigues” para homenagear cidadãos dedicados à causa socioambiental.
À agência Mongabay, Maria comentou que a condenação trouxe um “lavamento para a alma”, assegurando que a semente da resistência de seu companheiro continuará viva na defesa intransigente da floresta e de seus povos.