Família do militante de esquerda Jarbas Marques recebe certidão de óbito retificada após 52 anos

A filha do militante pernambucano, Nadejda Marques, conselheira da Justiça Global, participou da cerimônia promovida pela Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos nesta sexta-feira (22), no Recife.

Mais de 50 anos após o desaparecimento político de Jarbas Pereira Marques, sua família recebeU a certidão de óbito retificada do militante pernambucano. Filha de Jarbas e integrante do Conselho da Justiça Global, Nadejda Marques, participou da cerimônia nesta sexta-feira (22), no Recife (PE). A solenidade foi realizada na sede da Ordem dos Advogados do Brasil em Pernambuco. 

A iniciativa é promovida pela Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP), do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC), que já realizou quatro solenidades de entrega dos documentos. 

O órgão foi criado em 1995 para fazer o reconhecimento de pessoas mortas ou desaparecidas pela ditadura em razão de atividades políticas, além de atuar na localização de corpos e na análise de pedidos de reparação apresentados por familiares, conforme previsto na legislação brasileira.

O evento no Recife reunirá familiares de 52 vítimas assassinadas ou desaparecidas pela ditadura empresarial-militar brasileira nos estados de Pernambuco, Alagoas e Paraíba.

A Comissão também realizou cerimônia em Fortaleza (CE) na quinta-feira (21),  na Assembleia Legislativa do Ceará, onde foram entregues documentos referentes a outras 12 vítimas. 

Quem foi Jarbas Pereira Marques?

Militante da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) e da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (UBES), Jarbas Pereira Marques foi preso pela primeira vez em 1969. Durante o período de prisão, foi torturado e contraiu tuberculose.

Em 1973, com 24 anos e já casado, Jarbas foi uma das vítimas do episódio conhecido como Massacre da Chácara São Bento, quando seis pessoas foram sumariamente assassinadas em uma operação conduzida pelo então delegado Sérgio Paranhos Fleury, do DOPS/SP, com colaboração do ex-cabo José Anselmo dos Santos, agente infiltrado entre organizações da resistência.

Embora a versão oficial alegasse troca de tiros, investigações posteriores demonstraram que as vítimas sequer estavam reunidas no momento da captura. Testemunhas relataram que Jarbas trabalhava na Livraria Moderna quando foi preso.

Em depoimento à CEMDP, em 1996, a advogada Mércia de Albuquerque Ferreira afirmou que Jarbas a procurou dias antes de sua captura, já desconfiado de que seria alvo de uma emboscada.

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Apesar de sua mãe ter reconhecido o corpo, Jarbas foi enterrado como indigente no Cemitério da Várzea, em Recife. Posteriormente, a família conseguiu autorização para recuperar e sepultar seus restos mortais.

Família marcada pelo exílio

Nadejda Marques participa da VI Solenidade de entrega das Certidões de Óbito retificadas em Recife em 22/05/2026. Fotos Raul Lansky/MDHC.

Nadejda Marques tinha apenas 15 meses quando sua família precisou deixar o país. O exílio passou pelo Chile e, após o golpe militar de Pinochet, seguiu pela Suécia, Cuba e Panamá. Ela retornou ao Brasil aos 7 anos de idade.

Economista e defensora de direitos humanos, Nadejda integra a fundação da Justiça Global, criada em 1999. Atualmente vive nos Estados Unidos, onde atua como pesquisadora, professora universitária e cofundadora da University Network for Human Rights.

Ao longo da trajetória acadêmica e militante, escreveu e coordenou publicações sobre migração africana, sistema prisional brasileiro e saúde pública nos Estados Unidos. É autora do livro “Nasci Subversiva” (MundoAflora Edições, 2018) e coorganizadora, ao lado de Helena Dória, da obra “Crianças e exílio: memórias de infâncias marcadas pela ditadura militar” (Carta Editora, 2025).

Também atuou no Programa de Direitos Humanos do Center for Democracy and Rule of Law, da Universidade Stanford, e lecionou em instituições como Harvard, UCLA, University of Massachusetts e University of Colorado Boulder. Atualmente, é professora da Wesleyan University.

Desde 2022, integra o Conselho Fiscal da Justiça Global.

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